Sabrina Noivas 54 - Desert Wedding
 
Uma terrvel descoberta! Gergia Maitland se escondeu no Oriente Mdio para fugir do passado. E pensou ter encontrado seu futuro nos braos de Nathan Trehearn. Porm, a lua-de-mel ainda no havia terminado quando descobriu a cruel realidade do passado de Nathan: 1 mulher charmosa, que se autodenominava "a sra. Trehearn". Seu casamento no deserto havia sido uma miragem ou uma farsa

Digitalizao e correo: Nina


Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1997.  Publio original: 1995
Gnero: Romance contemprneo.  Estado da Obra: Corrigida
CAPITULO I

Aps meia hora  beira da piscina, Gergia sentia-se exausta e indolente. O calor era insuportvel, mesmo  sombra das palmeiras.
Foi um alvio quando entrou no bar do clube, e a intensidade do brilho do sol foi consideravelmente diminuda por vidros fume. Alm disso, o ambiente com ar-condicionado e o murmurinho da gua de uma fonte interna proporcionaram-lhe uma agradvel sensao. Seus olhos ainda no haviam se adaptado  semi-escurido, quando um homem baixo a cumprimentou. A figura pareceu-lhe vagamente familiar.
	Srta. Maitland? Gergia?  Diante de seu olhar surpreso, ele se apresentou:  Sou Grev Canning. Fomos apresentados na casa dos Kimberley, lembra-se?
	Oh, claro! Desculpe-me, no consigo focalizar nada.
Minha vista ainda no se adaptou a esta escurido.
	Realmente, isso leva algum tempo. Que tal um drinque para ajudar? Algo bem gelado e refrescante?
	Obrigada, Grev, mas eu j estava de sada. Na verdade, s entrei para pedir um txi.
	Ora, enquanto espera, poderia muito bem me acompanhar num drinque! Ento, aceita?
E por que no?, Gergia pensou. Afinal de contas, no estava com tanta pressa assim.
Tudo bem  concordou, sentando-se numa poltrona de couro verde.  Eu gostaria de um suco de laranja natural com bastante gelo, por favor. E, enquanto Grev fazia o pedido, o senso artstico de Gergia no pde deixar de analisar o garom que os atendia: um rabe muito alto e magro, usando uma tnica comprida de algodo cru e um turbante vermelho de veludo, colocado de lado sobre os cabelos negros como bano. Como tudo naquele pas, ele tambm exibia o ar extico que a encantava! Ento, Grev se esparramou na poltrona ao lado dela.
	Voc nadou?  ele perguntou, iniciando a conversa.
	Infelizmente, no. Minha inteno era essa, mas criaria problemas. Sabe como so os rabes...
	Bem, no incio  sempre um choque. Somos alertados sobre os costumes, no entanto nada nos prepara para o que realmente encontramos. No se preocupe, acabar se acostumando.
Ele acendeu um cigarro e, entre longas baforadas nervosas, no parava de falar, contando sobre seu trabalho no porto. Gergia o ouvia, distrada. Sua ateno estava mais voltada para as pessoas dispersas pelo imenso salo. Todas desconhecidas, com exceo de um homem em meio ao grupo prximo  janela...
Ela franziu o cenho, tentando se lembrar de onde o conhecia. O rosto lhe parecia familiar.
Absolutamente distrada, no percebeu quando uma mulher de postura agressiva cruzou a porta de vidro do clube e, sem dar tempo ao porteiro de ajud-la, marchou na direo deles.
O olhar apreensivo de Grev e o sbito movimento para se levantar alertaram Gergia. Instintivamente, virou-se para trs e viu a mulher fitando-os, enfurecida. Tinha cabelos ruivos e vestia uma bermuda folgada e uma camiseta absolutamente fora de moda.
Adiantando-se, a recm-chegada segurou possessivamente o brao de Grev, obrigando-o a sentar-se de novo.
	Greville, no vai me apresentar  moa?  a mulher indagou, com voz estridente e tom de desconfiana.
	Cia... Claro, amor. Esta  Gergia Maitland. Lembra-se dela na casa dos Kimberley?
	Lembro-me perfeitamente de no ter ido  casa dos Kimberley! Voc me convenceu a no ir, e s agora estou percebendo o motivo.
Diante da expresso de culpa de Grev, Gergia indignou-se. Primeiro, porque, odiava ser tomada como cmplice e depois, a ltima coisa que desejava era envolver-se em outra briga entre marido e mulher.
Somente o orgulho a impediu de pegar a bolsa e levantar-se. O murmrio de vozes no salo diminuiu, e os olhares voltaram-se para os trs. Morrendo de dio, Gergia controlou a irritao. Terminou de tomar o suco e sem pressa levantou-se com um ar de indolncia. Grev parecia envergonhado, e a mulher mantinha sua postura desafiante e agressiva.
Apesar de indignada, Gergia sorriu, procurando falar com voz melodiosa:
	Deixe-me ver.,. Hum... A senhora deve ser a mulher de Greville! Acertei?
	Acertou e  melhor lembrar-se disso, mocinha.
	Claro.  Apesar da raiva, Gergia continuava a agir de maneira fria e afetada, ciente de que o trio chamava a ateno do salo inteiro.  Na verdade, todos os presentes iro se lembrar de sua recomendao. Quanto a mim, pode ficar com seu...  A expresso de humilhao estampada no rosto de Grev a impediu de continuar. Mas a mulher merecia uma lio.  Oh, Grev, obrigada pelo suco delicioso! Foi muita gentileza sua, e a conversa estava tima, querido.
De queixo erguido e rebolando, Gergia caminhou por entre as mesas at a recepo, torcendo para que ningum notasse o tremor em suas mos, as faces em fogo e os olhos rasos d'gua.
	Por favor, chame um txi para mim  pediu  moa da recepo.
	Cancele o txi  um homem ordenou atrs dela.
Gergia se virou de sbito e encarou o intruso, com fria.
Ele deu de ombros.
	Tambm estou de sada e vou para a mesma direo que voc, senhorita...
Ela hesitou. Aquela encenao no a convenceu. Ele devia saber seu nome ou quem ela era, pois tambm tinha a sensao de j o ter visto em algum lugar.
	Srta. Maitland, no ?
	Ora, mas que esperto!
Ignorando seu sarcasmo, ele se virou para a moa do balco.
	No precisa chamar o txi. Estou indo para o mesmo lugar que a srta. Maitlnd.
Com naturalidade, segurou o cotovelo de Gergia e a conduziu para a sada. Assim que transpuseram a porta, ela puxou o brao, sentindo-o queimar com o toque.
	O que o faz pensar que a srta. Maitlnd pretende ir para o mesmo lugar que o senhor?
Ele sorriu, com malcia, antes de responder:
	Moramos no mesmo bloco de apartamentos.
Naquele momento, Gergia se lembrou de que j o vira no saguo do prdio onde alugara um apartamento.
	Ainda assim, isso no lhe d o...
	No, claro. Mas poderamos colocar um pouco mais de lenha na fogueira que se formou l dentro. Seria uma pena privar todas aquelas pessoas de um pouco de especulao sobre o assunto, no acha? E, depois, acredito que gostaria de sair daqui o mais rpido possvel, e apoio moral  sempre bem-vindo.
	No necessito de apoio algum, especialmente moral. E, se acaso...
	Precisasse, eu seria o ltimo homem a quem voc recorreria  ele a interrompeu e concluiu a frase.
	Eu no ia dizer isso.
Apesar de irritada, Gergia teve vontade de rir. Que situao mais estpida! O que mais a intrigava era sua prpria passividade diante da gentileza implacvel daquele homem, conduzindo-a para o estacionamento do clube.
	Bem, eu ia dizer que, se precisasse de apoio moral, jamais pediria a um homem.
	Hum...
Ele estalou os dedos para chamar a ateno do garagista, e em instantes uma limusine parava  frente deles. Quando Gergia deu por si, cruzavam os imponentes portes do clube, ladeados de palmeiras, e enfrentavam a loucura do trfego do centro de Raqat.
Distrada com a vista e os sons exticos, ela nem percebeu quando chegaram ao apartamento que ocupava havia duas semanas.
	Muito obrigada, sr...
Qual seria o nome dele? Que estranho ainda no o ter perguntado!
	Meu nome  Nathan Trehearn.  Ele sorriu, enquanto estacionava o carro sob uma sombra.  Muito
prazer, srta. Maitlnd.
	Nathan! Bem que notei seu sotaque, s podia ser americano!
	Fui pego em flagrante delito!
	Oh, sinto muito...  Ela riu, j caminhando ao lado dele em direo ao apartamento. No queria ser grosseira.
	No se preocupe, sou apenas meio culpado. Minha me  inglesa, e passei alguns anos na Inglaterra.
	Desculpe-me, fiquei abalada por causa daquele epis dio tolo l no clube. Estou cansada de homens casados que...
	Posso entend-la.
Gergia entrou no elevador, lembrando-se do vexame pelo qual passara. Precisou se controlar para no chorar. Na verdade, Nathan no entendera nada. Ningum podia compreender sua humilhao, muito menos um homem...
	No, voc nunca poder me entender  ela sussurrou.
Felizmente, o elevador parou, e Gergia saiu, apressada, estancando de repente.
	Ora, mas este no  meu andar!
De novo, sentiu no brao o toque de Nathan, responsvel pelo arrepio estranho que percorreu sua espinha.
	Tem razo, este  meu andar  ele explicou.  Como somos vizinhos, pensei que seria uma boa ideia oferecer-lhe uma xcara de caf.
No!  Ela se soltou com brusquido.  Obrigada, mas no estou de bom humor.
Ele abriu os braos num gesto entre divertido e exasperado.
	Tudo bem. No vou for-la.
Como a porta estava aberta, Gergia viu de relance uma pessoa limpando a sala, e hesitou. Pelo menos no estaria sozinha no apartamento de um estranho. Percebendo sua indeciso, Nathan a encaminhou para dentro.
O hall de entrada era revestido de mrmore branco, e a sala... Gergia prendeu a respirao. Espaosa e fresca terminava em arcos suaves, deixando entrever uma sacada, onde palmeiras, hibiscos e primaveras floridas enchiam o ar com a fragrncia de suas flores. Era maravilhosa e de bom gosto, um deleite para seu senso artstico.
A simplicidade e a quietude agiram como calmante para seu esprito agitado. Sofs forrados de seda crua e paredes brancas convidavam ao relaxamento. Dois vasos enormes de cermica oriental, revestidos de mosaico azul-escuro e branco, davam o nico toque colorido ao ambiente.
O olhar de Gergia foi atrado para um nicho, onde viu uma cabea humana entalhada em pedra polida preta. Com certeza, tratava-se de uma antiguidade egpcia, cujos traos captavam com extraordinria perfeio a arrogncia que vira em muitos nativos.
Intrigada com a beleza da obra de arte, Gergia deu um passo  frente. Nesse instante, ela viu a imagem de Nathan refle tida no espelho. Em p, atrs dela, ele a encarava.
Fingindo admirar a esttua, ela passou a examinar seu anfitrio, tentando ser objetiva. Era alto e magro, mas emanava poder. Talvez devido  autoconfiana. No era exata-mente bonito, com exceo dos olhos cinzentos de brilho incomum, emoldurados por clios longos e negros. Jamais vira olhos to lindos!
De repente, ela se deu conta de sua indiscrio. Observava-o de modo atrevido, e ele notara. Rubra de vergonha, fingiu ajeitar seu colar de contas de mbar enquanto afastava do rosto uma mecha de cabelos.
	Que sala agradvel! H quanto tempo mora aqui, Nathan?
	Um ano e meio.  Ele lhe indicou o sof e sentou-se numa cadeira diante dela.  Bem, eu lhe prometi algo para beber. Gostaria de caf, gim-tnica ou suco? Que tal comermos tambm? A esta hora gosto de um sanduche.
	Oh, eu no...
	Como no?  E sem lhe dar chance para argumentar, Nathan falou em rabe com um servial e depois explicou-lhe em ingls:  J est tudo providenciado. Ismail foi preparar o caf, mas, enquanto esperamos, que tal um gim-tnica?
	Est bem.
Gergia ouviu a prpria voz, fraca e distante. Talvez fosse um reflexo de como estava se sentindo e agindo. Como se sua capacidade de deciso houvesse se evaporado de uma hora para a outra. Porm, no podia deix-lo pensar que era uma pessoa indecisa. Pelo menos nunca fora at aquele dia.
	Com pouco gim, por favor  ela pediu com firmeza.
Aps lhe entregar o copo, Nathan tornou a sentar-se na cadeira diante dela, esticando as pernas sobre a mesa de centro.
	Fale-me sobre voc, Gergia  pediu gentilmente, observando-a com intensidade.
	Ah! Isso pode levar muito tempo e ser cansativo.
Na verdade, ela preferia se resguardar. Nathan a assustava. Era o tipo de homem para quem as pessoas se abriam com facilidade, sem perceber.
	Bem, hoje  domingo, temos tempo de sobra, no?  ele insistiu, sorrindo.  Prometo no ficar nem um pouco entediado. Gostaria de saber o que a trouxe a Raqat, por exemplo?
	Estou aqui para descansar... Sou estilista de moda.
No momento, sem trabalho, ela acrescentou, em pensamento. Jamais contaria sua desgraa justamente a algum cujo sucesso transparecia no rosto.
Bem, eu me sentia esgotada, precisava de inspirao, de novas paisagens, e como sempre tive vontade de conhecer o deserto... aqui estou, em Raqat  Gergia prosseguiu.  Est satisfeito?
Havia algo de enervante na absoluta concentrao dele, embora inspirasse simpatia.
	Ah, entendo...
Naquele instante, Ismail entrou na sala, empurrando um carrinho que colocou ao lado de Nathan.
Obrigado, Ismail. Tudo parece perfeito.
Realmente, a perfeio era incontestvel. O aroma do caf recm-coado e a viso dos sanduches, de tamanhos variados, despertaram a fome de Gergia. Lembrou-se ento de que nao tomara caf da manh e, sem se fazer de rogada, aceitou a xcara de caf, provando um dos sanduches.
	E os Taylor?  Nathan perguntou inesperadamente.
	Quem?!
	O dono do apartamento abaixo deste, onde voc est hospedada. Pertence a um professor de ingls, mas ele e a mulher tiraram frias, pelo que sei.
	Ah, sim... O tio dele  amigo de meu pai. Quando eu soube que estariam fora durante este ms, propus alugar o apartamento. E deu certo.
	Sim, mas pensei que eles...
	O qu?
	Ora, esquea! Com certeza, enganei-me. Aceita mais caf?
	Sim, est delicioso!  Gergia esticou a xcara e pegou outro sanduche de salmo, olhando ao redor com certa inveja de tanto espao.  O apartamento dos Taylor  muito menor que este, claro. H um nico quarto. Voc deve ter a cobertura inteira, no? Bem, pelo menos no vi outra porta no hall quando sa do elevador.
	Sim, voc est certa, este vasto apartamento  s meu. Mas... conte-me como se envolveu com os Canning?
	Oh, os Canning! Foi pura coincidncia, juro. Entrei no bar do clube para pedir um txi, e de repente Grev surgiu em minha frente. Eu nem sabia de onde nos conhecamos! Ele precisou apresentar-se de novo. Bem, a me persuadiu a tomar um suco em sua companhia, ou talvez eu no precisasse de tanta persuaso. Acho que eu queria me sentar um pouco. Mas no vem ao caso.  Gergia se interrompeu um pouco e pegou outro sanduche.
	E voc no sabia que ele era casado?
	No, imagine! Bem, eu mal havia comeado a tomar o suco quando aquela mulher apareceu, acusando-me de tentar conquistar o marido dela. Foi um prato cheio para os frequentadores do clube. A esta altura, Raqat inteira deve estar sabendo do assunto. 
Nathan assentiu, sorrindo.
	No se preocupe com isso  consolou-a.  Viver numa pequena comunidade significa estar sujeito a crticas.  como se atussemos numa pea de teatro. Por falar nisso, a audincia quase caiu da cadeira quando ouviu sua resposta  mulher de Grev.
	Oh, cus! Minha inteno no era fazer um papel leviano. Na verdade, pretendia dizer outra coisa. Queria que ela soubesse que o pobre Grev, casado ou solteiro, no oferecia nenhum perigo real. No entanto, quando olhei para ele, humilhado, abatido, acuado, decidi virar a mesa. Pobre homem!
	 verdade. Grev tem a reputao de ser conduzido a rdeas curtas pela mulher. Se h motivo ou no para tanta desconfiana, no sei. Mas, pensando nas roupas estranhas e na ferocidade da sra. Canning... acha que algum pode censur-lo?
	Concordo plenamente. Entretanto, foi muito desagradvel passar por aquela situao  Gergia confessou.
	Claro, mas no a ponto de sentir-se desiludida com os homens em geral, como voc deu a entender. O responsvel por essa sua profunda averso, com certeza, no foi o pobre Grev, ou foi?
	No, claro. E no sei se concordo com essa sua colocao de averso ou antagonismo.  A conversa entrava num campo perigoso, e Gergia achou melhor ir embora. No tinha a inteno de explicar-lhe seus motivos.  Bem preciso ir... Obrigada pela ajuda e pelo lanche. J me sinto muito bem.
	Ora, j vai? Justo agora que a conversa se tornava interessante?
	Sinto t-lo aborrecido durante tanto tempo.
	Quem disse isso?
	No acabou de falar que s agora a conversa estava se tornando interessante?
	Desculpe-me, no me expressei bem. Intrigante, seria a palavra correta. De qualquer modo, a conversa estava to interessante que gostaria de continuar ouvindo-a e... Que tal jantarmos fora esta noite?
Oh, no!  ela se ops com nfase e depois ficou inibida diante do olhar surpreso de Nathan. --- Desculpe-me e... obrigada pelo convite.
Tudo bem.  Ele sorriu, acompanhando-a  porta.  O convite fica para uma outra ocasio, ento.
Gergia no via a menor possibilidade de encarar um outro envolvimento, por mais inofensivo que fosse. No entanto, ao invs de se desapontar, Nathan pareceu achar graa da deciso dela, provocando um certo ressentimento em "Gergia.
Ela se despediu mais uma vez e entrou no elevador, seguida por Nathan. Apesar da recusa de Gergia, ele fez questo de acompanh-la, deixando-a intrigada. Nathan era muito insistente, e isso a apavorava. Seria apenas gentileza ou...
	Esqueci um papel no carro  ele explicou de repente, parecendo adivinhar seus pensamentos. De certo, ria a sua custa.  Estou descendo simplesmente para peg-lo.
Ento, o elevador parou, e ela saiu, apressada.
	Obrigada mais uma...  A voz morreu nos lbios de Gergia, ao ver um estranho tentando abrir a porta de seu apartamento, rodeado de malas. Ei, moo! Onde pensa que...
	Ol, Pete  Nathan a interrompeu, para cumprimentar o rapaz.  Tudo bem?
	Nat! Que bom v-lo de novo, amigo!  O moo exclamou, sorrindo. De repente, notou Gergia e ficou indeciso, sem saber se a cumprimentava ou no.  Como... vo os negcios?
	Bem, mas... no espervamos que voltasse to cedo da viagem.  E, virando-se para Gergia, apresentou o rapaz:  Este  Pete Taylor.
Pete Taylor?! Ela passou a mo pelos cabelos num gesto de desespero. Ser que escutara direito? No podia ser! Recusava-se a admitir a realidade.
	Sobrinho de Lew Taylor?!  ela perguntou, negando-se a crer em sua suspeita.
	Sou eu mesmo  Pete afirmou.  Por qu?
	Voc no ia voltar agora! Deveria continuar de frias durante mais duas semanas!
	Oh, cus! No acredito... Voc  a pessoa que alugou meu apartamento...  Foi a vez de Pete passar a mo pelos cabelos enquanto examinava o envelope que tirou do bolso da cala. Havia apanhado suas correspondncias com o zelador do prdio, antes de subir.  Esta carta  de Lew. Aposto que confundiu a data de minhas frias.
	Confundiu?  Gergia indagou, incrdula.
	Isso  tpico de meu tio. Como sempre, fazendo confuses. Veja a data. Ele escreveu a carta, informando o perodo de sua permanncia aqui, depois que j havamos partido para o Canad. Sinto muito.
Abrindo a porta, Pete gesticulou para que Gergia e Nathan entrassem na frente e os seguiu, depositando sua bagagem no cho do hall, antes de ir para a sala de estar, onde os outros dois j se encontravam.
	O que vamos fazer agora?  Gergia tornou a perguntar.
	Para ser sincero, no sei.  Ps a mo no queixo, pensativo.  A verdade  que estive viajando durante trinta e seis horas, e minha cabea j no raciocina muito bem. E Angie, minha mulher, s chegar daqui a um ou dois dias. Ela quis ficar mais um pouco com a tia idosa e...
	Escute, Pete...  Nathan o interrompeu.  Antes de mais nada, precisa de um bom sono para descansar.
Ao ouvir aquilo, Gergia ficou a ponto de soltar fumaa pelo nariz. Que ousadia a dele de querer controlar tudo mais uma vez! Pelo visto, estava acostumado a se intrometer nos problemas dos outros, mesmo quando no era chamado! Porm, antes que pudesse protestar, Nathan se virou para ela e continuou:
	E voc, Gergia, por que no pega suas coisas e sobe a meu apartamento? Assim pensamos com calma numa soluo. Tenho vrios amigos na cidade. Posso ligar para um deles.
	Mas...  Inconformada, ela ainda pensou em argumentar, pois havia pago caro pelo ms inteiro. No entanto, ao olhar para Pete, percebeu a dificuldade com que ele mantinha os olhos abertos e desistiu, virando-se para Nathan.
 Bem, no estou bem certa se quero ir para...
	Ora, ningum quer ir a lugar algum!  Nathan a interrompeu, impaciente.  Enfrentamos uma situao difcil, concorda? Duvido que queira passar a noite nesse sof minsculo! E Pete, coitado, tambm no merece dormir no sof depois de viajar tantas horas. Ento, vamos? Pegue suas coisas, e pensaremos numa soluo l em minha casa. Contrariada e irritada, ela lhe lanou um olhar furioso. Que homem intrometido! Quem visse aquela cena, pensaria que ela era a encrenqueira, e no a vtima. Porm, analisando a situao com frieza, Nathan tinha razo. No lhe restava outra alternativa, seno acatar a sugesto dele. E concordar com sugestes parecia estar tornando-se um hbito, do qual no gostava nem um pouco.
	Certo ela disse, relutante.
Enquanto tirava suas roupas do armrio e apanhava no banheiro o estojo de maquilagem, Gergia se arrependeu de ter se comportado de forma grosseira e indelicada, porm fervia de raiva por dentro. Jogou toda a roupa dentro da mala, ouvindo Nathan e Pete sussurrarem na sala. Do que falavam? Infelizmente, no conseguia entender nenhuma palavra, s percebia que um sempre usava um tom mais determinado que o outro e no precisava ser adivinha para saber quem era.
Assim que ela retomou  sala, carregando a mala pesada, Nathan a tomou de suas mos e saiu, apressado, para o elevador. Pete se desculpou brevemente e fechou a porta em seguida.
Na cobertura, Gergia andava de um lado para o outro at que no aguentou mais e extravasou a fria:
	Que dio! Tudo acontece comigo. Maldio!
	Isso mesmo, ponha para fora  Nathan a incentivou. 	Tem todo o direito de estar furiosa!
	Ora, veja s quem fala! Voc me surpreende, sabia? L embaixo, no apartamento de Pete, eu no tinha um pingo de razo. Ele podia dar um jeito na situao, mas... Bem, por que eu deveria esperar alguma gentileza da parte dele? Neste pas, s o sexo masculino tem direitos! At os carros so para o uso e o prazer exclusivo dos homens!
	No sei, no...  Nathan contestou, com suavidade. 	Quem a trouxe para casa hoje?
	Isso  uma afronta! Pensa que sou tola? Voc vinha para sua casa de qualquer forma. Eu apenas...  Sua voz tremeu, como se fosse chorar.
	Calma, no fique to nervosa assim, nem se preocupe tanto.  Nathan se aproximou, tentando consol-la.  Pode ficar aqui o tempo que quiser.
	Aqui?! O plano no era esse! Voc disse que ligaria para alguns amigos...
	Certo. Eu pretendia mesmo ligar, mas refleti melhor. O fato  que tenho quartos sobrando, voc j percebeu isso. Ento, por que ir embora quando h a sua disposio uma sute vazia? Encontramos a soluo perfeita, pronto!
	No posso aceitar, ou melhor, no quero aceitar. Na verdade, eu deveria ter ficado l embaixo.
Por duas vezes consecutivas e num curto espao de tempo, Nathan havia presenciado sua humilhao. No ficaria, e ponto final!
	No v que  humanamente impossvel?  ele insistiu.  Quatro daqueles miniapartamentos cabem dentro deste aqui.
	Irei para um hotel, ento. Deve haver muitos por a.
	No se iluda, Raqat  uma cidade pequena comparada a Riyadh ou Amman. Nos domnios do sheik, existem poucos hotis, cujos quartos so reservados com muita antecedncia e a diria, meu anjo, custa uma verdadeira fbula. Se estiver disposta a pagar...
	Ento, voltarei para casa  Gergia o desafiou, embora interromper suas frias fosse a ltima coisa que desejava fazer.
	O que seria uma pena...  Ele sorriu, e os olhos cintilavam com malcia.
O sorriso encantador a distraiu por um instante, fazendo-a rever seu julgamento anterior a respeito da beleza dele. Que sorriso fascinante!
	Alm do mais  ele continuou, com suavidade , os voos tambm so raros e precisam ser reservados com antecedncia.
	Pois comeo a me perguntar o que vim fazer nesta terra de loucos? Ser que algum dia conseguirei escapar daqui?
	Quanto  primeira questo, eu lhe fiz essa mesma pergunta e voc, se bem me recordo, respondeu com evasivas e preferiu se despedir de mim na primeira oportunidade.
	Perfeitamente : ela falou, com sarcasmo.
	Quanto  segunda, fique. S ento poder desistir.
	Desistir do qu?
	De escapar, de fugir ou qualquer coisa do gnero.
	Pois duvido muito que esse dia chegue!
	Bem, nesse meio tempo, por que no aceita minha sugesto?
	Sugesto?! Qual?
Nervosa e indecisa, Gergia sentia-se uma gazela indefesa na mira de um caador. No via mais como se esquivar.
	De jantarmos fora para... voc continuar me contando sua vida. Reitero o convite.
Desconfiada, ela o fitou, controlando-se para no parecer uma criana diante de um doce gostoso. Afinal, talvez fosse bom jantar fora.
	Bem, pelo jeito, no tenho escolha  ela concordou por fim.
	Para ser sincero, no muita  ele afirmou, sorrindo.  Mas no me parece uma sugesto terrvel e inaceitvel. Bem, vamos levar sua bagagem para o quarto.
Nathan a conduziu por um corredor, abrindo uma das vrias portas que havia ali. Mais uma vez, Gergia ficou boquiaberta. O quarto era espaoso e bonito. Alis, infinitamente mais charmoso do que o que ocupava na casa dos Taylor.
	Pode ficar pelo tempo que quiser  ele informou.
	Tanto assim? E uma oferta muito tentadora.
Nathan sorriu com malcia.
	Sem laos ou compromisso.
Nesse caso... obrigada.
	Que bom!  Ele colocou a mala que carregava sobre uma mesinha e indicou um boto perto da cama.  Se precisar de qualquer ajuda, toque a campainha. Enna, a mulher de Ismail, vir at aqui. E, agora que est tudo acertado, que tal um ch? Vou pedir que Enna o traga.
	Obrigada  ela agradeceu novamente, desejando que ele sasse logo do quarto.
De repente, sentia-se exausta, como se tivesse feito uma caminhada de quilmetros. E perdera a vontade de lutar contra a m sorte. Naquele momento, seu nico desejo era dormir.
 Bem, sairemos para jantar por volta das nove horas, se voc estiver de acordo e...  Ele hesitou, antes de continuar:  Tenho uma proposta para lhe fazer, Gergia.
Antes que ela tivesse tempo de assimilar as ltimas palavras, Nathan j havia sado. Ela ainda se virou a tempo de ver a porta se fechar, porm faltou energia para correr e pedir uma explicao.
Em vez disso, examinou o quarto. As duas camas estavam forradas de brocado salmo, o cho de mrmore continha veios cor-de-rosa e as cortinas, leves e transparentes, combinavam com o papel das paredes.
A cpula do abajur de cabeceira era feita do mesmo tecido da cortina, e a espreguiadeira, forrada de seda.
Sentando-se na banqueta diante da penteadeira localizada num canto do quarto, Gergia suspirou, aliviada, por estar ali.
Que dia longo!, pensou, fazendo um retrospecto. Logo ao se levantar, pela manh, sentira-se indisposta. Por sorte, havia se recuperado com certa facilidade. Depois, quando pensara em divertir-se no clube, acontecera aquele incidente desagradvel do casal. Por ltimo, a afronta de ter perdido sua casa. Sua casa no, a de Pete, lgico! Sim, os dias no Oriente Mdio deviam ser mais longos que nas outras partes do mundo!
Desanimada, examinou-se no espelho. No ficaria nem um pouco surpresa se tivesse envelhecido dez anos naquelas poucas horas. No entanto, qual no foi sua surpresa ao constatar que no s mantinha o aspecto jovial como estava mais corada e vibrante. O sol bronzeara sua pele macia, tornando-a dourada e realando os olhos verdes. Os cabelos loiros tambm haviam adquirido algumas mechas claras.
De novo, suspirou. Daquela vez, em completo desespero. Viajara para to longe na tentativa de colocar a vida em ordem, de esquecer o passado e o que lhe acontecia? Aparentemente, havia apenas trocado um problema por outro.
Erguendo os braos, tirou o colar de mbar, colocando-o sobre a penteadeira. Ao ficar em p, olhou para sua figura refletida no espelho. Apesar de tudo, o vestido ainda mantinha uma aparncia decente. O tecido leve de algodo e o modelo favoreciam seu porte esguio. Com certeza, ainda a reconheceriam como a srta. Gergia Maitland, ex-assistente do famoso estilista de moda, Jordan Severs.
Um pensamento inesperado quase a fez chorar. Por pouco, no se transformara na amante de Jordan. Se no fosse o bendito telefonema, revelando a existncia da esposa e dos filhos dele, naquele exato momento, em vez de estar em Raqat, encontraria-se na cama com o cnico Jordan. E em alguma praia romntica do Caribe...
Uma leve batida na porta a assustou. Rapidamente, pegou o vestido que acabara de tirar e o colocou em sua frente, antes de abri-la. Ficou feliz em ver Enna com a bandeja de ch e um sorriso simptico.
Instantes depois, Gergia bebeu o ch, tomou banho e deitou-se na cama macia. Pouco a pouco, foi sentindo uma sonolncia agradvel. Estava quase fechando os olhos quando um pensamento sbito a fez recostar-se novamente no espaldar da cama, com o olhar na parede.
Proposta?! Nathan havia dito proposta ou plano? Ela fran-. ziu o cenho, desconfiada. Em seguida, um sorriso tmido aflorou em seus lbios. Se Nathan pretendia lhe fazer uma proposta, ficaria surpreso com sua habilidade em esquivar-se. Fora ingnua e fraca apenas uma vez! A experincia adquirida com Jordan a deixara afiada como uma lmina de barbear. Contudo, se a proposta tivesse algo de positivo, tudo bem. Do contrrio, ele perderia tempo.
Afundando a cabea no travesseiro macio, Gergia procurou, em vo, render-se ao sono. Sua mente no parava de pensar nas palavras de Nathan. O que ele dissera mesmo? De repente, lembrou-se: proposta! De casamento?! Ora, seria a ltima coisa que ele lhe proporia! Diante do absurdo da ideia, ela riu. Como podia ter pensado em tamanho absurdo? Justo ela que, em hiptese alguma, queria envolver-se num relacionamento, permanente ou passageiro. Jordan a curara de toda e qualquer propenso nesse sentido. E por muito tempo!
Porm, sem querer, ela comeou a analisar os dois homens. Dificilmente duas pessoas tinham tantas diferenas. Jordan possua cabelos grisalhos, era esguio, sofisticado e caminhava com leveza. Nathan, ao contrrio, andava com determinao, alm de pentear os cabelos negros de maneira convencional. Fora isso, inspirava-lhe segurana. Pelo menos, at aquele momento.
Sim, aquele pensamento era tranquilizador, Gergia pensou, acomodando a cabea no travesseiro. Na Inglaterra, sempre apreciara a companhia de homens bomios, de temperamento alegre e despreocupado como Jordan. Provavelmente, sua atrao por ele se devia  aura de sofisticao que o rodeava, embora fosse pura afetao. Agora, longe dele, conseguia analis-lo sem emoo. O hbito de cercar-se de garotas altas e bonitas havia contribudo para criar a fama de Jordan e iludi-la.
Graas aos cus, Nat Trehearn tinha um comportamento totalmente diferente. Seria impossvel imagin-lo agindo de maneira teatral ou afetada e...
De repente, Gergia se deu conta de que no tinha a menor ideia do que Nathan fazia ou onde trabalhava! Que coisa estranha!
Encontrava-se sozinha no apartamento de um homem que conhecera havia apenas algumas horas, e a nica coisa que sabia sobre ele era seu nome...
O cansao a venceu. Sem perceber, fechou os olhos, e a respirao se suavizou. Ento, ela dormiu profundamente.

CAPITULO II

Gergia despertou depois de duas horas de sono repousante e logo comeou a se arrumar.
Por alguma razo inexplicvel, vestiu-se com mais capricho, escolhendo, dentre seus conjuntos, o mais original. A cala pantalona parecia uma saia longa  primeira vista. Porm, ao andar, o tecido leve de organza se moldava ao corpo, deixando entrever as pernas esguias e bem-feitas. O tom verde-escuro, salpicado de bolas creme, realava seus olhos verde-claros. A blusa, uma tnica do mesmo tecido, tinha um bordado no decote, que lhe dava um toque especial.
Depois de pronta, examinou-se no espelho e ficou apreensiva. Embora a conjunto fosse clssico, sua figura estava elegante e imponente demais. Parecia at que se vestira para um encontro importante, com a inteno de conquistar Nathan!
Se ao menos no tivesse se esmerado tanto na maquila-gem... Felizmente, algum totalmente leigo no assunto imaginaria que a sombra verde nos olhos, o blush realando as mas do rosto e o batom suave eram meras casualidades, e no obra de uma especialista naquela arte.
Talvez o efeito devastador de sua aparncia devesse ao contraste da roupa sbria com o penteado jovial. Com muito custo e aps vrias tentativas, conseguira tranar os cabelos, deixando a ponta pender sobre um dos ombros. Sim, estava atraente!
Faltava o perfume, claro. Adorava perfumes. Distrada, pegou o primeiro frasco que viu sobre a penteadeira e passou-o com vontade, entrando em pnico em seguida. Por que escolhera justamente aquele perfume sensual, se no
estava saindo para um encontro romntico? Alis, no gostaria de passar esse tipo de mensagem ao homem que simplesmente sentia pena dela.
Talvez fosse melhor trocar rapidamente de roupa e...
Algum bateu  porta. Com o corao disparado, Gergia a abriu e deparou-se com Enna.
	Meu amo mandou dizer que est pronto.
	Obrigada, Enna. J estou indo.
Rapidamente, Gergia calou as sandlias de salto alto, pegou a bolsa e olhou-se mais uma vez no espelho. Talvez estivesse muito atraente, mas e da? Afinal, sempre se vestira para agradar a si prpria e no mudaria os hbitos de uma vida inteira de uma hora para a outra. Sorriu com satisfao e depois saiu para encontrar o "amo".
Nathan a aguardava, encostado numa parede do hall. Bonito ou no, certamente chamava a ateno onde quer que fosse. Em parte, devido  altura, aos ombros largos e aos quadris estreitos, tudo em perfeita harmonia. Como a maioria dos homens de porte atltico, ele tambm inspirava poder. E, como se no bastasse, ainda sabia escolher as roupas com muito gosto.
A cala escura de pregas, a camisa branca e a gravata marrom combinavam perfeitamente. Jogado com displicncia sobre os ombros, pendia um blazer esportivo. Estava impecvel e sedutor!
Ser que sua admirao pelo estilo convencional de Nathan no passava de uma maneira de vingar-se de Jordan? Talvez... De qualquer modo, no teve tempo de considerar a questo, pois Nat caminhava em sua direo, exalando um perfume delicioso e msculo.
	Hum... voc est perfumada  ele disse.
	Obrigada.
Gergia no se afetou pela falta de um elogio especfico a sua aparncia. Afinal, no se esmerara para ningum e preferia passar despercebida.
Desceram em silncio pelo elevador. Um silncio inibidor, ela pensou, consciente das batidas aceleradas de seu corao e da presena de Nat atrs de si.
Permaneceram calados tambm no carro, enquanto Nat mantinha a ateno no trfego, desviando das ruas mais movimentadas e atravessando o labirinto do centro antigo da cidade com seus bazares fechados.
Aps meia hora, cruzaram um portal em arco e percorreram uma alameda ladeada por um jardim florido.
Gergia admirava tudo, no perdendo um detalhe sequer. No passado, aquela propriedade devia ter sido uma casa de campo de algum milionrio, agora reformada para abrigar o restaurante requintado. Sob um caramancho de videiras bem cuidadas, havia mesas ao ar livre.
	Que lugar maravilhoso!  ela exclamou, olhando ao redor.
	Achei que gostaria daqui. Venha, vamos dar uma volta pelo jardim antes do jantar.
Outra vez, ele a segurou pelo brao, guiando-a por um caminho entre rvores e arbustos, iluminado por refletores. De repente, surgiu uma clareira, onde havia um lago rodeado de pedras e uma fonte no centro, que produzia um murmrio doce e sonoro. Esparramados pelo jardim, vasos de barro antigos, repletos de lrios azuis em plena florao, encantavam os olhos.
Extasiada, Gergia se sentou na beira do lago e mergulhou a mo na gua cristalina e agradvel. No mesmo instante, peixinhos dourados a rodearam, beliscando as pontas de seus dedos.
	Ei, vim aqui para jantar, e no para servir de comida!  ela exclamou, retirando a mo.
	Esses peixes nunca esto satisfeitos, mas no podemos aliment-los demais. Morrem de repente, se ficarem obesos. Mas, pelo visto, voc tambm est com fome.
Eles deram a volta na construo imponente e, atravs das janelas abertas, puderam ver os frequentadores jantando. Havia um ar de esplendor e opulncia na maioria, provavelmente reflexo da recente riqueza trazida pela explorao do petrleo.
	Essa  a sala principal, porm, se preferir, podemos comer no jardim...  Nathan explicou.
	Oh, vamos sentar aqui fora, por favor!  E fazendo um gesto amplo com as mos, ela indicou o jardim.  Olhe para isto! Que maravilha!
Distrada em admirar a paisagem, Gergia no notou o olhar embevecido de Nathan diante de seu entusiasmo.
	Claro!  ele disse.  Tambm prefiro ficar ao ar livre.
O garom os acomodou numa mesa afastada, de frente para o jardim, e Nathan lhe pediu para que trouxesse uma garrafa de vinho de excelente qualidade. Gergia no controlava o entusiasmo.
	Perfeito! Como algum pode preferir ficar l dentro numa noite como esta, no acha?
	Tem razo. Hoje em dia, com a descoberta das minas de petrleo, surgiram vrios restaurantes em estilo ocidental para atender ao paladar dos estrangeiros. Mas ainda prefiro os mais tpicos. Gosto de ter a impresso de estar no seio da civilizao antiga, da velha Raqat, cercada de tamareiras.
De repente, ele percebeu que Gergia examinava o cardpio, indecisa.
	Espero que esteja com bastante fome, Gergia. As pores neste restaurante costumam ser enormes.
	Oh, estou morrendo de fome!  ela afirmou, esquecendo a inibio.  Esta  a primeira vez que sinto fome desde que cheguei a Raqat. Fiquei indisposta no primeiro dia, durante um passeio, e no senti mais vontade de comer.
	J entendi...
Percebendo o prprio erro em iniciar aquele assunto, Gergia ficou embaraada e olhou de relance para Nathan, torcendo para que ele no tivesse notado seu rubor. Entretanto, a expresso jocosa no rosto dele demonstrou o contrrio.
	Ora, no foi nada grave...  Gergia explicou, fingindo ler o cardpio.  Apenas tive medo de comer pratos exticos ou picantes.
	Que bom que j sarou! Mas seria melhor no abusar das comidas com muito tempero. Cuscuz  um prato muito gostoso e inofensivo. Um escocs, amigo meu, disse que  to bom quanto mingau de aveia. Tambm pode experimentar um dos pratos com carneiro, todos so deliciosos.
	Por favor, escolha por mim, sr...  Sem saber se deveria cham-lo pelo primeiro nome ou pelo ltimo, Gergia esperou o garom servir o vinho, anotar os pedidos e sair, ento brincou:  Sr. Auxlio! Na verdade, no sei como devo cham-lo...
	Pretendo cham-la de Gergia simplesmente. E meus amigos me chamam de Nat.
	Nat  ela repetiu na mesma entonao.  Acho que no conheci ningum com esse nome. Bem, muito obrigada por me trazer a um lugar to cheio de magia, Nat.  Ela se recostou na cadeira e admirou o cu.  Por que o cu daqui parece to diferente do da Europa? Olhe, h milhes de estrelas incrustadas no veludo negro sobre ns.
	Foi esse o motivo que a trouxe a Raqat? Alm da curiosidade a respeito do deserto?
	Na verdade, _ s uma das razes.
	E as outras... quais so?
	Ora, no vamos estragar a noite com bobagens.  Ela esboou um sorriso cativante. Depois, apoiando os cotovelos sobre a mesa, levou o copo aos lbios.  Hum... este vinho est delicioso! Sabe, seria muito mais interessante, ou intrigante, ouvi-lo. O que faz aqui em Raqat, Nat?
	Discordo plenamente, mas vamos l... Fico contente em lhe contar o que quiser saber.
	Apenas gostaria de saber o que perguntei.
	S isso?! Bem, sou um oceanografista biolgico e, quando estudei em Cambridge, fiquei conhecendo o atual sheik de Raqat. Freddy  um governante liberal, segue a cultura ocidental, apesar de seus comentrios revoltados.
	A respeito de mulheres dirigirem carros?
	Isso mesmo. Entenda, ele precisa fazer mudanas gradativas, pois as crenas religiosas esto profundamente enraizadas no povo rabe. Por falar em crenas, acredito que muitos homens ocidentais achariam at bom que as mulheres no...
	Pare! No diga mais nada!
	Acalme-se, Gergia  Ele fez um ar de riso.  Cuidado para no agitar sua bandeira feminista com muito entusiasmo. No  o momento e muito menos o lugar para certas rebeldias.
	Pois no vejo onde est a rebeldia em uma mulher querer dirigir seu prprio carro  ela sussurrou. Em seguida, voltou a falar num tom de voz normal:  Bem, continue, por favor, Nat.
	Obrigado.  Os olhos cinzentos pareciam sorrir, desafiando-a.  Como ia dizendo, o atual regime  liberal. A mina de petrleo no transformar o reino num pas milionrio porque  pequena, mas trar alguns benefcios para o povo. O sheik est preocupado em preservar a vida selvagem, especialmente a flora martima do mar Vermelho. No quer de forma alguma prejudic-la. E a ele me convidou para trabalhar aqui. Pedi dois anos de licena na Universidade de Princeton, onde lecionava, para traar um plano e dar assistncia ao pas pelo tempo que for necessrio. Boa parte do projeto j est em andamento.
	Oh, isso  fascinante!
Quando poderia imaginar que ele tinha aquela profisso?, Gergia pensou. E que fosse um professor universitrio?!
	Realmente,  excitante!  ele acrescentou, animado.  Mergulhei em vrias partes do mundo e nunca havia visto um rochedo com tanta variedade de vida marinha como o daqui, ao sul do porto. Portanto, poderamos considerar uma tragdia global se esse deslumbrante mundo subaqutico fosse danificado... J mergulhou alguma vez, Gergia?
	Sim  ela afirmou e em seguida arrependeu-se. No queria que Nathan soubesse de sua participao numa equipe de mergulho, principalmente porque fora um ex-namorado quem a convencera a mergulhar.  Oh, mas foi h tanto tempo, Nat! Acho que nem me lembro mais.
	Ningum desaprende a mergulhar. E como andar de bicicleta, uma vez aprendido, nunca mais se esquece. Alm do mais, no pode ter sido h tanto tempo, como diz. Voc no  to velha assim.
Naquele instante, o garom trouxe a comida, e Gergia ficou satisfeita com a oportunidade de mudar de assunto.
	Este cuscuz  mesmo uma delcia!  elogiou-o depois de prov-lo. 
	Tambm gosto. Em princpio, estranhamos os temperos exticos dos rabes, mas com o tempo aprendemos a apreci-los cada vez mais. Agora, Gergia, conte-me qual foi o verdadeiro motivo que a trouxe a Raqat? Essa histria de conhecer o deserto e ver as estrelas no me convenceu.
Ela o fitou, pensativa. O que lucrava escondendo a causa de suas frias foradas? Talvez fosse at bom revelar a verdade e livrar-se de uma vez por todas de sua angstia.
	Como j deve ter desconfiado, Nat, fiz papel de tola perante um homem.
	Acho difcil apreditar nisso.  Num gesto afetuoso, ele lhe segurou a mo, estimulando-a a continuar.
	Acredite ou no,  a pura verdade.
	No teria acontecido algo para... Bem, se no quiser, no diga nada.
	Se pensa que fui forada, engana-se. E no h muito mais para contar. Simplesmente quando me conscientizei da situao crtica na qual estava metida, afastei-me o mais rpido que pude  Gergia interrompeu-se, com um ar distrado, e comeou a traar com o garfo uma espiral no prato de comida. As feridas em seu corao ainda continuavam abertas.

	E ento?  Nat perguntou, tirando-a do devaneio.
Ela sorriu com timidez e depois deu de ombros.
	Infelizmente, esse homem era meu chefe.
	O que virou sua vida de cabea para baixo, no ?
	Com certeza. Foi duplamente difcil porque perdi o homem... e o emprego. Oh, a confuso no clube, hoje, deixou-me inconformada! Ser possvel que...
	Foi apenas uma falta de sorte  ele a interrompeu.  Aposto como a mulher de Grev agiria da mesma forma se, em vez de estar conversando com voc, ele estivesse acompanhado de uma senhora de sessenta anos.
	O que no alivia em nada a situao desagradvel pela qual passei.
	No, claro. Porm, analise o seguinte: existe uma grande quantidade de homens solteiros aqui.
	E da?  Gergia o fitou, sem entender nada.
	Voc chama muito a ateno...  Inclinando-se sobre a mesa, Nat franziu o cenho, com um ar preocupado.  Principalmente de tipos como Canning, no  verdade?
	No estou entendendo aonde pretende chegar.  Nathan a desconcertava, mais pela maneira como a encaravado que pela casualidade das palavras.  Sei me cuidar muito bem em situaes semelhantes, acredite-me.
	Oh, acredito, juro! Voc foi notvel, enfrentando a sra. Canning. Mas no acha que a vida se tornaria mais fcil se os aventureiros pensassem que voc tem um namorado?
	Pode ser...  Gergia respondeu, indecisa. No ntimo, no gostava nem um pouco do rumo da conversa.  Entretanto, no tenho namorado.
	Sei disso.  Ele suspirou, impaciente.  E voc tambm, mas ningum mais precisa saber, entendeu?
- Quer dizer...  A ideia era to ridcula que Gergia sorriu, sem graa.  No me diga que est pensando que voc e eu... isto , ns dois...
	Exatamente.
	Ora, mal nos conhecemos! Eu nem havia notado sua presena no prdio at hoje!
	Que importncia tem isso? Se quer saber, eu a vi muitas vezes, embora voc tenha se recusado a me notar.
	Para falar a verdade, eu o vi, sim. Apenas uma vez, de relance.
	Ufa, finalmente confessou! Que bom!
	Oh, sinto muito. Mas veja, eu tentava me recuperar de um corao partido e de um estmago enjoado...
Nervosa, Gergia riu. Acabara de fazer uma piada da prpria desiluso.
 Bem, pela quantidade que comeu agora, acho que seu estmago j sarou e...  Ela fez um gesto com a mo, querendo protestar.  Espere, deixe-me terminar. No acha que para curar coraes partidos nada melhor do que diverso? Com muita diplomacia, isto , usando luvas de pelica, podemos dar o troco! Imagine como Myra Canning e a sociedade de Raqat iro se sentir quando perceber que enfiaram os ps pelas mos?
	Bem, eu adoraria, mas...  Gergia hesitou. Sua cabea estava confusa, tentando pesar todas aquelas ideias conflitantes. E havia um ponto que a intrigava mais do que a proposta.
	Ento, estamos combinados?  ele insistiu.
	O que voc ganha com isso, Nathan? Para ser sincera, no tem cara de filantropo para dedicar-se a uma ao humanitria e prejudicar sua reputao, ajudando-me. E tampouco me conhece.
	Minha reputao?!  ele zombou.  Duvido que valha a pena salv-la! No entanto, voc tem razo, existe um interesse. Alm de ajud-la, claro, h algum que quero desencorajar.
	Oh, certamente! Os homens so sempre perseguidos contra a vontade deles!
	Eu no disse isso  Nathan contestou, achando graa na indignao dela.  Voc tem de concordar que, em algumas circunstncias, os homens, assim como as mulheres, so obrigados a fugir de alguns ataques indesejveis.  Ele se debruou sobre a mesa e tocou de leve a ponta do nariz de Gergia.  O que estou sugerindo  uma boa sada para ns dois. De qualquer forma, a est minha proposta. Ento, o que me diz?
Ainda desconfiada, ela fixou em Nat um olhar pensativo. S tinha uma desculpa para recusar a proposta. Um argumento que ele no poderia negar.
	Veja, no sei se daria certo. Vou ficar em Raqat s mais duas semanas.
	No necessariamente  ele falou com voz suave.  Isso s depende de voc, Gergia. Pode permanecer aqui pelo tempo que quiser, no ?
	Acho que no  uma boa ideia, Nathan  ela respondeu depressa.  E, com certeza, no serei abordada novamente.
	No?!  Ele olhou com malcia para Gergia.  Se eu fosse voc, no estaria to certo. Ainda mais vestida desse jeito!
	O que h de errado com minhas roupas?  Ela abaixou os olhos para examinar-se. A blusa era to fechada quanto um hbito de freira!
	Eu no disse que havia algo errado... Muito pelo contrrio, voc est linda. E, se andar por a vestida desse jeito, todos os homens frustrados desse lugar, solteiros ou no, ficaro apaixonados.
Gergia sorriu, enrubesceu e, sem se dar conta, gostou de ouvir o elogio, apesar de no acreditar no que ele acabara de afirmar.
	Ora, vesti esta roupa especialmente para...
	Sim?  Nathan insistiu, sorrindo com malcia, diante da hesitao dela.
	Oh, esquea!  Gergia tentou desconversar.
Como pudera ser to ingnua e tola a ponto de cair na armadilha que ele preparara?
	No percebeu como os homens das outras mesas se viraram para v-la quando chegamos?
	O qu?!  Ela franziu a testa, procurando concentrar-se.
	Esse penteado, Gergia...  Nathan estendeu o brao para tocar a trana loira, cada sobre o ombro dela. Alguns homens consideram irresistvel o tipo colegial.
Evitando encar-lo, ela se aprumou para fugir ao toque inibidor da mo mscula. Bebericou o vinho, pensativa, e depois disse:
	Sabe, sempre desconfiei que alguns homens tm problemas psicolgicos misteriosos.
Os lbios de Nathan tremeram com vontade de rir.
	Bem, no venha me dizer depois que no a avisei!  Aps uma breve pausa, ele prosseguiu, com suavidade:  Mas voc ia explicar por que escolheu essa roupa, e eu a distra. Especialmente para o qu, Gergia?
	Oh!  De novo, ela enrubesceu.  Ora, no sei. Creio que para enaltecer meu ego e me sentir mais forte. Quando disse que tinha uma proposta, eu no fazia ideia do que se tratava e ento resolvi usar minhas armas femininas.
Sem sorrir, ele a observou de maneira quente e profunda, provocando-lhe um arrepio.
	Estou contente por ter pensado assim, Gergia. To contente que seria uma pena...
Do que ele falava? Ela queria perguntar, mas a voz no saa. O olhar de Nathan parecia hipnotiz-la. Talvez fosse a luz da vela sobre a mesa que causava aquele magnetismo.
	Como? O que seria uma pena?  ela finalmente indagou, com voz fraca.
	Esconder-se. Voc precisa aparecer um pouco mais. Que tal darmos uma volta aps o jantar? Em geral, h um conjunto tocando no clube a esta hora. Poderamos provocar a grande decepo agora mesmo!
De certa forma, a resposta de Nathan a desapontara. Mas por qu? Qual o motivo de sua expectativa? Por mais que pensasse, no encontrava uma resposta concreta para a sbita excitao que a dominava naquele momento.
	Voc quis dizer...  ela vacilou.
	Apenas isso, Gergia. Por que no terminamos a noite dando uma passada pelo clube, antes de voltarmos ao apartamento? Proporcionaramos ao pessoal um assunto para conversarem...
	E se Grev estiver l, com a mulher?
	E da? Acabar encontrando com eles mais cedo do que imagina. Na verdade, ficarei desapontado se eles no estiverem no clube.
	Acho que ainda no estou pronta para esse encontro, Nathan. No se esquea de que tudo aconteceu hoje de manh.
O lembrete servia mais para ela prpria do que para Nathan, pois comeava a ficar tranquila, a se esquecer das humilhaes pelas quais passara.
	Foi um dia longo para voc, eu sei. Mas no est cansada, certo?
Ela deu um largo sorriso.
	No! Descansei bastante esta tarde. A cama de seu apartamento  muito mais macia do que a da casa de Pete! Mal encostei a cabea no travesseiro e j adormeci.
	Ento? Estamos decididos? Seria melhor irmos hoje, porque amanh partirei para a Sua por alguns dias.
	Sua?!
Gergia desviou o olhar para no demonstrar seu desapontamento. Por algum motivo inexplicvel, no se sentia eufrica, mesmo tendo conscincia de que o apartamento maravilhoso ficaria s para si.
	Vou a uma conferncia  ele explicou, gentil.  E eu viajaria mais tranquilo se a acompanhasse ao clube hoje. Detesto deix-la  merc de Myra Canning.
Gergia nada comentou, e ele lhe segurou as mos, antes de questionar:
	E ento? Enfrentamos o inimigo ou batemos em retirada?
A pretexto de pegar algo em sua bolsa, ela retirou as mos de cima da mesa. O conta to com Nathan lhe provocava sensaes estranhas.
	Bem, colocado dessa forma... no vejo como recusar o convite!
	No?
	Ainda no lhe contei, mas sou filha de um soldado. E o certo  enfrentar o inimigo, como voc disse.
	Boa garota. E assim que eu gosto!
Em seguida, ele chamou o garom e pagou a conta. Depois, segurou o brao de Gergia, com um sorriso irresistvel.
	Podemos ir?
Ela concordou, retribuindo o sorriso. Na verdade, o que seu corao queria o tempo todo era sentir a segurana e o conforto de estar ao lado de um homem como Nathan.

CAPITULO III

Nathan estacionou o carro no ptio do clube, e, enquanto caminhavam para a sede, Gergia teve vontade de desistir do plano. De repente, ela percebeu que suava frio. Seria de covardia? No. Pensando bem, no era apenas covardia ou medo. Quem no se abalaria tendo passado por tantas situaes humilhantes como ela nos ltimos tempos? Decepes que talvez nem o tempo curasse?
Oh, que tolice a sua em concordar com Nathan!
Logo ao entrarem na sede, permaneceram perto da porta, de onde tinham uma viso perfeita do salo e do conjunto tocando no palco.
Apenas por um segundo, Gergia pensou nos Canning e chegou  concluso de que no havia motivo para sentir-se humilhada. Uma histria bem diferente acontecera com Jor-dan Severs, seu ex-patro. A simples lembrana daquele nome a fazia tremer de dio e de vergonha. Devia ter suspeitado de Jordan, claro! Tudo indicava a existncia de uma esposa bem guardada em algum lugar, contudo... Como desculpar a si prpria? No fundo, evitara certas perguntas e...
Lgrimas afloraram em seus olhos, e ela imediatamente se virou para sair, porm Nathan a impediu, segurando seu brao com firmeza. Ele devia ter notado seu ar abatido.
 Coragem! Vamos iniciar a execuo de nosso plano.
Gergia ergueu os olhos tristes e amedrontados, sabendo muito bem a que plano ele se referia. Nathan, no entanto, sorriu com simpatia, incentivando-a. Depois, pegou-a pela mo, conduzindo-a gentilmente por entre as mesas para a pista de dana.
Ao sentir os braos de Nat em sua cintura e a segurana com que ele danava, Gergia no se importou com mais nada, aderindo  brincadeira. Danavam de rosto colado, como se fossem namorados.
De repente, o conjunto iniciou uma msica familiar, e ele falou propositadamente em voz alta para todos  volta escutarem:
	Gergia, querida, escute... O conjunto est tocando nossa msica!
	Oh, sim!  Ela o fitou com um olhar sonhador e depois sussurrou:  Se essa  nossa msica, ento todos tero dvidas quanto a nosso namoro, Nat.
Por alguns segundos, ele olhou fixamente para seus lbios, e ela quase perdeu o passo, sentindo uma espcie de vertigem.
	No estou conseguindo identific-la...  ele murmurou finalmente.
	Identificar o qu, Nat? Ah, o nome da msica?
	No era sobre isso que falvamos, querida?
	Bem...  algo parecido com "Por que no confia em mim, baby?" Lembra-se, fazia parte das paradas de sucesso de alguns anos atrs? S no consigo lembrar o nome da banda.
	No faz mal. O ttulo da msica  mais apropriado do que imagina.
Gergia ia zombar, quando sentiu as mos fortes escorregarem at seus quadris, enquanto os corpos moviam-se em perfeita sincronia.
	De fato, no deveria confiar em mim, baby  ele sussurrou, perto de seu rosto.  Nem um pouquinho!
Naquele instante, ela percebeu a aproximao de um casal muito agarrado e o olhar crtico e perscrutador de Myra Canning. Sem perceber, perdeu o ritmo, mas Nat continuou como se nada tivesse acontecido.
	Ou, talvez, deva confiar, baby  Nathan sussurrou de novo.  Deu certo, Gergia. Myra fitou-nos com os olhos arregalados. Oh, foi maravilhoso! Vamos tomar um drinque?
Segurando-a pela cintura, ele a levou para o bar e apresentou-a a um grupo de amigos. Havia um casal neozelands, duas americanas e os outros eram ingleses.
Se os homens foram receptivos, as mulheres, com olhares disfarados, examinaram-na da cabea aos ps. Principalmente, uma das americana. Rindo e conversando, a moa parecia analisar suas roupas e o penteado.
Gergia, no entanto, no deixou por menos. Por telepatia, como s as mulheres sabem fazer, as duas passaram a medir-se sem os demais perceberem.
O olhar da americana era insistente, e Gergia comeava a ficar inquieta e sem graa quando se lembrou do acordo que fizera com Nat. Portanto, devia-lhe um favor. Recompondo-se, Gergia apoiou a mo displicentemente no brao dele. No mesmo instante, Nat lhe dirigiu um sorriso sedutor e, para sua grande perplexidade, pegou-lhe a mo, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
De repente, ela se deu conta de que a cena havia despertado a curiosidade de todos e, em particular, de sua examinadora. Realmente, os olhos midos e hostis de Melaine Jacobs no perderam um s detalhe!
A agressividade da moa era to explcita que Gergia teve um sbito pensamento, do qual no gostou nem um pouco. Nathan havia dito que precisava desencorajar uma mulher. E se aquela mulher estivesse ali naquele momento? E se fosse Melaine? Nathan a apresentara como uma velha amiga! Era americana, como ele, e ambos haviam estudado em Princeton! As coincidncias eram tantas...
Dave, um dos neozelandeses aproximou-se, interrompendo seus pensamentos.
	Tenho a impresso de t-la visto outro dia na casa dos Kimberley. Estou certo?
Gergia lhe devolveu um sorriso amvel, grata pela oportunidade de virar-se de costas para Melaine, fugindo assim da anlise persistente.
	Estive l, sim. Eles viajaram para Santiago, devem estar se divertindo com a filha!
	E voc... se bem me lembro, alugou o apartamento dos Taylor. Eles tambm foram viajar, no?
	Oh, sim, mas...
Ela sentiu as faces quentes pelo rubor. Como iria explicar a situao sem ficar embaraada ou demonstrar culpa? Desesperada, olhou para Nathan, que, notando imediatamente sua perturbao, virou-se para Dave.
	Na verdade, houve uma grande confuso com as datas, Dave  explicou, com naturalidade.  Pete regressou antes do esperado, e, por isso, adotamos a soluo mais simples e bvia. Gergia mudou-se para meu apartamento.  E, virando-se novamente para Gergia, beijou-a na face.  Simples, no foi, querida?
Ela apenas concordou com um gesto de cabea. Se pudesse, faria um buraco no cho para fugir dos olhares es-tupefatos que lhe foram enviados.
Aquelas palavras tiveram o efeito de uma bomba, principalmente para Melaine. Sua expresso perplexa deixou evidente que no gostara nem um pouco da soluo simplista de Nathan.
Foi um alvio quando mudaram de assunto, passando a conversar sobre teatro, por causa da chegada de um grupo de atores da Inglaterra a Raqat. Alm de se recompor, Gergia fez comentrios inteligentes e notveis sobre o teatro vaudeville. Explicou a todos que esse tipo de teatro, tambm chamado teatro de variedades, era constitudo por peas leves e situaes imprevistas, com a participao do pblico. Melaine, de propsito ou no, ops-se a todos, argumentando com exaltao.
Percebendo o clima tenso, Nathan disse a Gergia que j era tarde, e ento se despediram dos amigos e foram embora.
Imersa em seus pensamentos, Gergia quase se chocou com Grev Canning, que tomava um drinque no balco do bar, na companhia da esposa.
	Ol, Grev  ela cumprimentou e depois sorriu vaga 
mente para Myra, que parecia pouco  vontade.
Gergia ficou espantada com sua prpria espontaneidade. Nunca imaginara ser capaz de tanta frieza. No entanto, irritou-se quando Nat comeou a conversar com o casal e ouviu o convite de Grev para tomarem um drinque juntos.
Talvez num outro dia, Grev  Nat respondeu.  Hoje, estamos exaustos e loucos para nos deitar.
Mais uma vez, Nat surpreendia a todos com a resposta imprevisvel, inclusive a Gergia. A fisionomia atnita do casal deu a ela uma vontade imensa de rir, mas conteve-se at sarem do clube.
Porm, assim que transpuseram a porta do salo, Gergia deu um grito eufrico e, rodopiando de alegria, fingiu hastear a bandeira da vitria.
	Oh, foi to engraado, Nat! Viu a cara deles?
	Engraado?!  Ele a segurou pela cintura, olhando-a intensamente.  Trata-se de uma conspirao para confundir o inimigo, Gergia. De um plano estratgico, e no de uma diverso.
	Oh, desculpe-me, meu amo  ela ironizou, aproveitando para se afastar. Aquele contato dava-lhe arrepios.  No imagina como me sinto bem agora. A raiva que sentia pela mulher de Grev desapareceu. Viu a cara dela?  perguntou de novo e depois ficou sria.  Acha mesmo que nosso plano deu certo, Nathan?
	Claro! Nosso sucesso foi total, querida.
	Tem razo.
Algo na expresso de Nt a fez recordar-se da fisionomia perplexa de Melaine quando ele contou a todos que, com a chegada de Pete, ela havia se mudado para a cobertura. Que tipo de relacionamento existiria entre Nat e a garota americana?
	Quando me apresentou a Melaine...  Gergia hesitou, no querendo parecer muito interessada  disse que a conhecia bem, no?
	Ela  o que podemos chamar de... uma velha amiga da famlia.
	Ah, sim!
Infelizmente, suas suspeitas se confirmavam. Mas... infelizmente, por qu?, ela pensou, desanimada, ao entrar no carro. No havia explicao para seu desnimo e muito menos para a euforia de momentos antes!
O plano estratgico, como Nathan o chamara, havia abalado a reputao de Gergia. E ela comeava a cair em si, abismada com a prpria conivncia, pois sempre dera muita importncia a sua reputao, jamais aprovando a constante troca de namorados das colegas da faculdade.
Sim, fora complacente, naquela noite, ao permitir que a sociedade a julgasse uma mulher volvel! Mal sabiam eles que estava bem longe de ser esse tipo de pessoa.
Durante todo o trajeto de volta, ela se manteve calada, meditando sobre sua vida e os ltimos acontecimentos. Suas incertezas e indignaes haviam alcanado o ponto mximo quando desceram do elevador.
Assim que Nathan abriu a porta do apartamento, ela entrou, furiosa.
	O que as pessoas pensaro de mim, Nathan?
	Ora! Exatamente o que espervamos que pensassem que voc e eu somos um s!
	Oh, Cus! Pois  disso que estou falando!
	 to importante assim o que os outros pensam, Gergia? Mesmo que fosse verdade, no se trata de nenhuma catstrofe. Ao contrrio, com o tempo, vai salv-la de muita dor de cabea.
	Mas foi tudo inveno! Desonestidade!
	Bem...  Ele suspirou, jogando a jaqueta com displicncia sobre o sof.  S existe uma maneira de tornar esse assunto honesto. Porm, no pretendo levantar a questo agora.
	Uma maneira  ela repetiu, distrada, abaixando-se para pegar a jaqueta que cara no cho.  E qual ...
De repente, compreendeu a que maneira ele se referia e ergueu a vista, desconfiada, deparando-se com o olhar cnico de Nathan.
	 isso mesmo  ele afirmou, vendo-a enrubescer.  Ei, fique calma, sua virtude no est sendo ameaada.
	Ora, no estou nervosa! Sei muito bem que no corro perigo e que voc no pretende...  No estava nervosa, ela pensou, mas de mau humor. E por qu?  Por favor, no me trate como uma adolescente ingnua, sim?
	Ento, no aja como uma.
Nathan se dirigiu ao bar, despejou um pouco de gua tnica num copo e ofereceu-o a ela. Diante da recusa de Gergia, ele se apoiou no balco e examinou-a com um olhar duvidoso, antes de beber o contedo do copo de uma vez.
	Desculpe-me, no percebi que agia assim  Gergia falou, sem graa.
Ele apenas continuou fitando-a, em silncio. Pelo jeito, Nathan j se arrependera de t-la acolhido no apartamento, Gergia pensou, sentindo um n na garganta.
	Bem, obrigada pela noite... interessante e boa noite - ela acrescentou, controlando-se para no chorar.
Gergia j se virava para sair na direo de seu quarto, quando ele disse, interrompendo-a:
	Voc deve estar cansada.  Suspirou e colocou o copo sobre o balco.  Tambm estou, e, como j a avisei, amanh viajarei para Basle, na Sua. Vou participar de uma conferncia sobre ecologia. E engraado como os conferencistas se preocupam tanto com o futuro ecolgico do planeta e viajam de avio, sem sequer notar quanto gastam das reservas naturais na prpria locomoo.
	Realmente. Eu nunca havia pensado sobre o assunto. Vai ficar fora por muito tempo?
	Apenas durante quatro dias. E gostaria que ficasse  vontade no apartamento, como se fosse sua prpria casa. Enna a ajudar no que for preciso e se, por acaso, quiser sair ou passear, pea a Ismail para lev-la.
	Obrigada, mas vou procurar no aumentar o trabalho deles.
	Ora, no seja to humilde!  Nathan sorriu, aparentemente refeito do mau humor. Depois, num gesto afetuoso, puxou-lhe a trana de leve.  No combina com voc, sabia?
Seria falta de personalidade!
	Verdade?! Sabe, estou contente por no ter gasto meu dinheiro com um tratamento psiquitrico, antes de ter vindo para c. Voc possui uma percepo excelente.
	Minha anlise foi perfeita, no?
Ela riu, apesar de estar levemente irritada.
	Contraditria, eu diria. Num momento, diz que pareo uma adolescente ingnua e, no outro, uma mulher diablica que gosta de fazer charme.
	Eu disse isso?!
	Algo parecido.
	Ento, perdoe-me. No costumo ser to direto e rude.
	Oh, agora quem est surpresa sou eu!
	Sinto muito, mereo a repreenso.  Ele riu, deliciado.  Deixei-me levar por uma irritao momentnea.
	Tudo bem. Todos ns sofremos desse mal uma vez ou outra.
	Bem, acho melhor esquecermos esse episdio. Ento, estou perdoado?
	Desde que fui acolhida nesta casa graas a sua boa vontade, sim, est perdoado. E vou procurar seguir as regras da casa.
	Que diplomacia!
Gergia fez uma reverncia, aceitando o elogio. Estava gostando da brincadeira. Respostas vivas e espirituosas sempre foram seu jogo preferido. Alm disso, parecia que flertavam. Seria possvel?
De repente, ela ficou sria. Precisava tocar num assunto delicado. Um assunto que j deveria ter discutido com Nathan antes de haver concordado em ficar no apartamento dele.
	Nathan, preciso saber quanto vou pagar pelo aluguel do quarto, pelas refeies, enfim, por tudo.
	No se preocupe com isso.
	E impossvel.
	Ora, est sendo antiptica e sem personalidade outra vez! S para tranquiliz-la, vou contar um segredo. Tambm no pago pelo apartamento. Este prdio pertence ao sheik e moro aqui por cortesia. Como v, seria uma falta de tica de minha parte cobrar de voc.
	Enquanto isso, meu dbito com voc vai aumentando?
	Claro.  parte de meu plano. No havia desconfiado ainda?! Logo farei minha primeira cobrana.
	E a tica?
De repente, ele ficou srio, fitando-a mais de perto.
	Conte-me, Gergia, qual foi o verdadeiro motivo que a trouxe a Raqat? Para ser sincero, essa histria de passar por tola, por causa de um homem, no me convenceu.
	Ora,  uma histria simples e banal, como tantas outras!  comum isso acontecer com as mulheres, no?
	Acredito que todos ns passamos por tolos s vezes. Mas voc?! E por causa de um homem? Acho difcil acreditar.
	Oh, muito obrigada pelo voto de confiana!  ela caoou, subestimando-se.  Diga-me, ento, o que notou em mim de diferente da maioria das mulheres? Com certeza, no posso ser to...
	O olhar, a personalidade, o estilo...  Nathan a interrompeu, encarando-a com intensidade.  Eu poderia continuar enumerando qualidades, mas no vou. Voc mencionou algo a respeito de seu patro e...
Gergia suspirou, desapontando-se quando ele parou de elogi-la.
	Bem, foi uma dessas situaes estpidas ou ridculas, tanto faz  ela comeou, com relutncia.  O fato  que, quando uma pessoa tem vinte e seis anos e supostamente deixou de ser uma garota ingnua, acaba fazendo papel d tola, concorda?
	Sim  ele disse simplesmente.
	Pois bem, trabalhei para esse homem durante seis meses. Na poca, o fato de eu ter sido contratada por uma griffe famosa parecia ser a grande oportunidade de minha vida. Ainda mais sendo em Londres. Jordan, meu chefe, enaltecia meu ego, elogiando meus desenhos. Ele me fez crer que eram muito melhores do que os dos outros, quando na verdade no eram.  Ela deu um sorriso triste.  Tudo no passava de uma preparao para o golpe final.
	E voc tambm no sabia que ele era casado, lgico.
	Oh, como fui ingnua! Agi tal uma adolescente, como voc me comparou. Uma adolescente perdidamente apaixonada. Acho que por isso no gostei de sua comparao. Enfim, por mero acaso, descobri que ele tinha mulher, filhos e uma manso no campo, de onde a famlia quase no saa. No participavam da vida glamourosa de Jordan. Ele praticamente os escondia.  Gergia se virou de costas para esconder os olhos rasos d'gua.   uma histria banal como tantas outras, como pode ver.
Mas no fora tao banal assim, ela pensou, caminhando devagar para a sacada. Pensativa, debruou-se sobre a grade de proteo, admirando as luzes cintilantes da cidade e o brilho do mar ao longe.
No, jamais dividiria com algum seu drama ntimo e particular.
Lembrava-se perfeitamente daquele dia terrvel. Logo pela manh, bem cedo, havia acontecido uma situao de emergncia na loja, que somente Jordan poderia resolver. A secretria lhe dera um nmero de telefone, pedindo a ela para cham-lo.
Uma criana atendera  ligao e, em seguida, a me. Enquanto falavam, Gergia ouvira o choro de um beb. Nesse momento, imaginara um lar agitado, com as tarefas do dia-a-dia, principalmente na parte da manh. Talvez tivesse se enganado de casa, pensara, quando a me pedira  criana:
	Charlotte, meu bem, corra ao quarto e diga ao papai para atender ao telefone. Algum quer falar com ele.
Passados alguns segundos, em estado de choque, Gergia ouvira a voz de Jordan, alta, clara e ntida. No houvera engano.
Controlando-se, dera o recado da loja e depois acrescentara, com a voz embargada de dio:
	E, Jordan... esquea o Caribe. Eu no sabia que voc tinha outros compromissos.
	Como?! Ora, no se preocupe, Gergia...  ele sussurrara.  No posso falar agora, telefonarei numa hora mais conveniente.
	Acho que sua mulher est preparando seu caf da manh, Jordan. Sinto o cheiro do bacon tostado, juro.
Assim que desligara o telefone, ela recolhera de cima da mesa e das gavetas todo seu material artstico, inclusive os desenhos, e voltara para casa.
A tarde, Jordan ligara para ela e tentara de todas as formas faz-la voltar atrs em sua deciso de no viajar mais para o Caribe. At mesmo argumentara que j tinha s passagens e que, caso desistissem, ele perderia o dinheiro.
	Mas voc no precisa perder nada, Jordan  Gergia respondera, com candura.  Pode levar outra pessoa com voc. Sua mulher, por exemplo.
	No seja ridcula!
	Bem, e por que no Wendy, sua secretria? Desconfio que ela queria que eu soubesse que  casado e que tem filhos.
Para no ouvir mais a conversa fiada de Jordan, ela apoiara  fone na mesa e o deixara falando sozinho. No quisera correr o risco de perder a cabea e acabar gritando feito uma mulher trada e abandonada. No tinha a menor ideia de quanto tempo ele gastara com justificativas, sem saber que ela no o escutava.
Gergia odiava-se por ter sido to ingnua a ponto de no suspeitar que Jordan devia sair com Wendy tambm. Fora Wendy quem havia lhe pedido para telefonar para ele! Apesar de estranhar o pedido, no desconfiara de nada, nem por um momento sequer. S depois, ao chegar em casa, lembrara-se de ter notado uma expresso esquisita no rosto da secretria.
Trs dias depois, Gergia viajara para Raqat.
Nathan aproximou-se da balaustrada, trazendo-a de volta  realidade.
	Voc vai superar tudo isso, prometo, Gergia  falou suavemente.
Virando-se, ela sorriu.
	Promete?!
	E por que no? Todos ns nos arrependemos de algo que nunca deveria ter acontecido...
Gergia o fitou. Talvez ele quisesse lhe contar algum segredo. Talvez at sofresse e gostaria de desabafar, mas, naquele momento, no queria ouvi-lo. Sentia-se vulnervel e, se no fugisse dali rapidamente, faria papel de tola outra vez.
	 verdade, Nathan  concordou por fim.  Bem, preciso dormir um pouco. O dia foi muito longo.
	Oh, claro!
Ele a acompanhou at a porta do quarto e beijou-lhe a face.
	Boa noite, Gergia.
	Obrigada, Nat. Voc praticamente salvou minha vida hoje,
e nunca vou esquecer. Boa noite.  De repente, lembrou-se da viagem  Sua.  Vejo-o amanh, antes que parta?
 Acredito que no. Vou sair muito cedo, Gergia. Mas no esquea que Enna e Ismail estaro a sua disposio. E, quando eu voltar, pretendo lev-la a uma expedio de mergulho. Quero que fique acertado desde j.
Enquanto lavava o rosto, antes de deitar-se, Gergia pensava sobre a expedio de mergulho. Como participaria dessa atividade, se no tinha prtica? Quando ele voltasse, faria com que desistisse. E, naquele momento, uma outra preocupao surgiu em sua mente: a causa das sensaes estranhas que vinha sentindo.
Quando Nathan se inclinara, encostando os lbios em seu rosto, num beijo inocente e carinhoso, ela foi obrigada a controlar o desejo sbito de abra-lo e de se aninhar no aconchego do peito msculo.
Pobre Nathan!, ela pensou, rindo. Ele ficaria chocado com a atitude dela e, provavelmente, iria se trancar no quarto, temendo outras investidas.
Apesar do rpido momento de descontrao, Gergia ficou acordada por muito tempo, ponderando o significado de sua reao e, infelizmente, no chegou a concluso alguma.
Cada vez que pensava nos lbios macios de Nat, ondas de prazer espalhavam-se pelo corpo dela. Outras lembranas intrigantes juntaram-se a essa: o toque da mo quente de Nathan em sua pele durante o jantar, o cheiro agradvel da colnia masculina...
Aquele perfume seria a lembrana de uma noite especial para o resto de sua vida: a noite em que finalmente esquecera Jordan Severs. E por que o havia esquecido no fazia a menor diferena. Um dia, com certeza, Gergia descobriria...
De qualquer forma, seria eternamente grata a Nathan Trehearn por sua contribuio.
Satisfeita por ter superado a dor, suspirou profundamente. Depois, afundou a cabea no travesseiro, colocando a mo na face, onde fora beijada.

CAPITULO IV
Grergia estava adorando passar alguns dias I sozinha no apartamento de Nat. Alm de descansar e desfrutar a vista maravilhosa, o fato de ter um carro a sua disposio fez uma diferena incrvel no aproveitamento das-frias.
Seguindo ao p da letra a recomendao do "amo", Ismail se mostrava ansioso para lhe agradar, levando-a para conhecer o centro antigo de Raqat e lugares que nunca teria encontrado sem um bom guia. Ela sempre carregava uma prancheta e, apoiando-a no colo, desenhava durante horas, retomando um antigo hobby, que interrompera ao comear a trabalhar. Adorou desenhar as casas antigas, as ruas e os becos misteriosos, assim como os domos das mesquitas. Realmente, aquele era um mundo extico e fascinante.
Porm, nunca descobriu o que Ismail fazia enquanto a aguardava. Uma nica vez, viu-o sentado num bar, com um grupo de homens. Tomavam caf e discutiam com nfase, como se fossem resolver os problemas do mundo.
Sem ser vista, ela aproveitou para fazer um esboo rpido do motorista, captando apenas os traos marcantes de sua fisionomia: os cabelos pretos sob o turbante de veludo azul, o nariz adunco e as sobrancelhas bem delineadas. Depois de pronto, examinou o desenho e sentiu-se orgulhosa. Qualquer um o reconheceria entre os amigos. E, quando o mostrou a ele, a caminho de casa, Ismail sorriu, eufrico, emocionando-a tambm.
De todos os lugares que conheceu, a rua principal da cidade foi sua preferida. Parecia um caldeiro fervente. Pessoas recm-chegadas do interior, em nibus carcomidos, misturavam-se aos sofisticados turistas,  procura das ltimas novidades nos bazares coloridos.
Alm de desenhar, Gergia fotografava tudo o que via, para registrar as sombras mgicas e ilusrias que a percepo humana no conseguia captar inteiramente. Infinitas nuanas de marrom colocavam em destaque o verde e o azul intenso nas diversas paisagens. No entanto, encantou-se com a cor extica do amarelo-ctrico, cujo tom associou  neblina londrina: que podia ser tnue e transparente ao mesmo tempo, permitindo a infiltrao de uma luminosidade mstica.
A semana transcorreu rapidamente, e, embora estivesse se divertindo, a expectativa do retorno de Nathan despertou-lhe um excitamento estranho e amedrontador. Ento, quando o telefone tocou  noite e ela ouviu a voz forte e serena, avisando que no chegaria naquele dia, no conseguiu evitar a decepo.
	Sinto muito, Gergia. Terei de passar a noite no Cairo.
	Oh, no!  exclamou e em seguida arrependeu-se.
Que ridculo! Estava fazendo o papel tpico da esposa que se arrumava com esmero para esperar o marido, e este lhe dizia para ir dormir porque chegaria muito tarde em casa.
Erguendo o olhar para um espelho a sua frente, ela suspirou, vendo os cabelos brilhantes, a maquilagem delicada e a saia reta e elegante combinando com a blusa de seda, recm-comprada.
Nat era apenas um amigo, e em hiptese alguma podia deix-lo perceber seu desapontamento.
	Pois , marcaram uma reunio de ltima hora  ele explicou.
	Que aborrecimento para voc, no? Bem, obrigada por ter telefonado. Vou avisar Enna.
	Est tudo bem por a?
	Sim, tudo em ordem. Ismail foi muito prestativo e me levou para passear todos os dias. Mostrou-me vrios pontos interessantes da cidade.
	Otimo. E...  ele hesitou.
	O qu?
	Nada... Mas...
Gergia esboou um sorriso. Seria imaginao sua, ou Nathan relutava em despedir-se? Oh, que besteira! S porque estava agitada e feliz ele tambm deveria estar?
	Outro dia, conversei com Pete Taylor  ela se lembrou.  Ele me ligou antes de buscar a esposa no aeroporto. Queria saber se eu estava bem acomodada aqui.
	E?
	Respondi que era muito difcil tolerar o luxo de seu apartamento, assim como a responsabilidade dos empregados e os passeios de carro.
Nathan deu uma risada sonora.
	Voc foi maldosa!
	Imagine!
	Bem, prepare-se, pois a partir de amanh pretendo mudar as regras da casa. E ter de trabalhar para continuar usufruindo o conforto. Chegarei bem cedinho, e iremos mergulhar.
	Oh, Nat! No tenho certeza se irei. Faz sculos desde a ltima vez que mergulhei.
	No aceito desculpas e quero que fique pronta. Preciso muito descansar, Gergia. A semana foi agitada, e, para mim, mergulhar tem um efeito relaxante. Se quiser, podemos alugar algumas fitas de vdeo com documentrios sobre mergulho. Garanto que ter inspirao para o resto da vida.
	Hum... Peixes inspiram o qu?
	Eles fascinam e incendeiam a imaginao! Quando vir as cores, os movimentos suaves...
	Tudo bem, voc me convenceu. Estarei pronta, prometo.
	Boa menina. Agora preciso desligar, esto me chamando. Vejo-a amanh. Chegarei a junto com o nascer do sol.
	No  nesse horrio que os duelos acontecem, Nathan?
	Com certeza  ele sussurrou.  Boa noite, Gergia. Durma bem.
	Boa noite, Nat.
Assim que desligou, ela suspirou profundamente, sentindo um calafrio suave percorrer-lhe a espinha. E a nica palavra para exprimir aquela sensao era alegria.
Dirigindo-se  sacada, rodopiou e suspirou de novo, inalando o perfume extico do Oriente. Por que se sentia to excitada? Nunca pensara que a expectativa de mergulhar na costa de Aberystwyth pudesse deix-la exultante. Bem, mas a baa de Cardigan e o mar Vermelho deviam ser to diferentes quanto os instrutores de mergulho, Richard e Nat. E a grande diferena era que Nathan Trehearn, e s ele, preenchia uma equipe inteira.
Rindo do prprio pensamento, ela entrou para avisar Enna da alterao de planos, como havia prometido. Precisava fazer alguma coisa para ajudar o tempo passar.
No dia seguinte, Gergia apenas teve a confirmao da vspera: mergulhar no mar Vermelho tinha pouca ou nenhuma semelhana com a mesma atividade na costa do Reino" Unido.
Uma das vantagens era a gua limpa, cuja temperatura morna dispensava as incmodas roupas de borracha. A outra, e mais importante, tratava-se de Nat Trehearn, que, demonstrando um profundo conhecimento do assunto, inspirava confiana.
Ela j devia ter desconfiado, pois, desde que o conhecera, ele sempre demonstrara a mesma autoconfiana.
Pilotava o barco com firmeza ao afastaram-se do porto e, enquanto percorriam a costa martima, mostrava-lhe com igual segurana os pontos geogrficos mais importantes.
Porm, mais do que com as habilidades, Gergia surpreendeu-se com o porte atltico de Nathan. Por que a camisa dele, aberta no peito, perturbava-a tanto, a ponto de no conseguir desviar os olhos daquela imagem? Justamente ela que, como estilista de moda, estava acostumada a ver homens e mulheres nus? Homens com corpos to bonitos e bronzeados quanto o de Nathan?
De repente, ela teve uma vontade louca de desenh-lo. Pegou o bloco e, observando-o de vez em quando, iniciou um esboo.
	Estamos quase chegando  Nat a avisou de sbito.
	Como?  Gerga se assustou e ficou feliz por estar de culos escuros.  Em quanto tempo, Nat?
	Em dez minutos.
Tornando a se concentrar no desenho, ela percebeu que tambm era observada disfaradamente e sentiu-se pouco  vontade.
Naquele dia, antes de sarem do apartamento, havia procurado se vestir com simplicidade. Prendera os cabelos num rabo-de-cavalo, passara apenas um batom suave e escolhera um biquini discreto, prprio para esportistas. Contudo, quando viu sua imagem refletida no espelho, quase desmaiou de susto. No entendia como um maio de duas peas, preto, que no era cavado, podia ser to sedutor. Afinal, sempre soubera que aquela cor era o smbolo da discrio! Desesperada, vestira uma camisa folgada sobre o biquini, com o intuito de esconder o corpo. Mas, infelizmente, no havia escondido totalmente as pernas esguias.
	Pronto, chegamos  Nathan avisou-a novamente.  Deixe-me ajud-la com a aparelhagem de mergulho.
	D-me apenas um minuto.
Depressa, ela se levantou, colocou o bloco no assento que ocupava, com o desenho virado para baixo, e, com certo constrangimento, tirou a camisa. Ento, Nat se aproximou para prender em suas costas o tanque de oxignio.
Gergia precisou de todo seu autocontrole para no suspirar, quando as mos fortes encostaram em sua pele, testando a tenso e o conforto das alas nos ombros dela. Ento, virando-se para que ele verificasse o encaixe de sua mscara, Gergia sentiu o corao disparar ao notar que Nathan tinha os msculos do rosto crispados, como se tambm estivesse controlando-se.
Ainda faltavam os ps-de-pato! Ser que a agonia no teria fim, ela pensou, vendo-o se abaixar. A serenidade dele a espantava, porque teve vontade de gritar de prazer quando Nat lhe passou o talco protetor nos ps.
Foi um alvio quando ele se afastou para colocar seu equipamento de mergulho. E, a fim de disfarar a respirao acelerada, Gergia olhou para o oceano, fingindo admir-lo, at a pulsao se normalizar. O esforo era tal que nem notou quando ele ficou pronto.
 Podemos mergulhar?  Nathan indagou de repente.
Sem confiar na prpria voz, ela simplesmente assentiu, com um movimento de cabea. E, com um sorriso nos lbios, seguiu as instrues dele. Posicionou-se na lateral do barco e, firmando a mscara junto ao rosto, deixou-se cair de costas na gua.
Aps alguns segundos de pnico, descobriu que Nat estivera certo. Mergulhar era como andar de bicicleta: uma vez aprendido, nunca mais se esquecia.
Segurando-a pela mo, ele a guiou para o rochedo.
Um mundo fantstico descortinava-se a sua frente, e nada do que Nat pudesse ter dito a prepararia para aquilo. At mesmo um filme seria incapaz de retratar a beleza do mar Vermelho.
De tempos em tempos, ele chamava sua ateno para algum detalhe espetacular, escrevendo num quadro  prova d'gua. E, assim, ela percebeu as ferragens do esqueleto de um navio, praticamente encobertas por corais e mariscos.
De repente, um cardume de peixes transparentes surgiu do fundo de uma caverna. Ela se assustou, e Nathan ento escreveu no quadro: "peixes de vidro", "inofensivos" e tentou abra-la. Gergia esquivou-se e, sinalizando um pedido de desculpas, observou o cardume com interesse.
Os milhares de peixinhos pareciam dirigidos por um controle remoto. Primeiro, formaram um crculo denso e perfeito e, em seguida, o desenho de uma flecha numa coreografia digna dos mestres do bale.
Acompanhando a corrente natural da mar, Nat tornou a pegar a mo dela, contornando o navio naufragado para mostrar as escotilhas de lato. Uma barracuda enorme nadava em espiral por entre as ferragens. Entretida em admir-la, Gergia se assustou quando ele a puxou com violncia para trs, apontando para os tentculos perigosos de uma gua-viva gigante bem prxima deles.
Quando voltaram ao barco, ela no cabia em si de to eufrica. Vibrava de excitamento, e, como Nat previra, sua alma artstica estava mais estimulada do que nunca.
Com gestos nervosos, ela tirou a mscara e tentou se livrar do tanque de oxignio.
	Oh, foi simplesmente maravilhoso!  exclamou, suspirando.  Mas no consigo tirar as alas do tanque.
	Deixe-me ajud-la. Quando as alas esto molhadas, ficam difceis de tirar. E ento? Valeu a pena?
	Oh, sim! Se me contassem, nunca teria acreditado.  Gergia ergueu o olhar, agradecida.  Obrigada por ter me trazido, Nat.
	Bem, prometi que seria algo sensacional, no foi?  Ele pegou uma toalha e comeou a sec-la, observando-a com intensidade. O olhar e os movimentos provocaram em Gergia uma sbita tentao de acarici-lo.  E, para uma garota medrosa que se dizia ignorante no assunto, voc foi muito bem.
Ela no pde impedir um sentimento de orgulho com o elogio, apesar de considerar um absurdo. Para ele, devia ser um cumprimento banal e automtico, sem nenhum significado.
	E verdade?!  Ela pegou a toalha das mos de Nat e enxugou o rosto, para esconder o rubor.  No tive medo porque... acho que me senti mais  vontade aqui no mar Vermelho. Fiquei deslumbrada com a gua morna e lmpida e com as criaturas maravilhosas. Sabe o nome de todas?
Das espcies, quero dizer.
	Da maior parte, sim. Vou comear a ensin-la da prxima vez que mergulharmos.  Ele pegou dois refrigerantes no isopor.  Aceita um?
	Sim, obrigada, estou morrendo de sede.
	Se eu fosse voc, iria me sentar  sombra do guarda-sol. Para quem no est acostumado, este calor pode provocar  queimaduras terrveis. E, depois do lanche, se no estiver muito cansada, podemos mergulhar de novo.
Ambos comeram os sanduches que levaram em silncio. Alm de faminta, Gergia queria meditar sobre tudo que vira no fundo do mar.
	 muito triste pensar no navio naufragado, no acha?  ela perguntou de sbito.
- Sim, e h centenas deles ao longo da costa. Mesmo antes do canal ser construdo, j existia uma rota de comrcio intensa entre o Egito, Arbia e o Leste.
	Voc...
Gergia ergueu os olhos e, notando a expresso de puro desejo de Nat, esqueceu-se do que pretendia falar e at do que pensara minutos atrs. O mais estranho, porm, era que jamais dera importncia a olhares daquele tipo. A no ser quando tivera o caso com Jordan. E, mesmo assim... nunca experimentara aquela sensao de vertigem, como se o mundo houvesse virado de cabea para baixo.
	Voc...  ela tentou de novo, mas as palavras fugiram novamente.
Nathan sorriu com ternura, inclinando-se em sua direo. O brilho intenso no olhar dele sugeria o que ela no ousava pensar, mas, no ntimo, desejava. Ento, muito suavemente, Nat encostou os lbios em sua boca entreaberta.
Gergia fechou os olhos, e o mundo comeou a girar em cmara lenta, como se quisesse oferecer-lhe tempo para gozar as sensaes novas que experimentava.
Enfim, o tempo parou, e apenas ela parecia viva e consciente das fraquezas inebriantes do mundo. Fraquezas que havia pouco se gabara de no as possuir.
Entreabrindo os olhos, examinou o contorno do peito viril e bronzeado, sentindo-se novamente tentada a acarici-lo. Seria imaginao, ou havia um magnetismo entre os corpos...
	O que ia falar, Gergia?  Ele acariciou sua face rosada.
	Oh, sim...  Ela sorriu, sem graa.  Voc parece conhecer e entender muito de mergulho.
	Hum... Voc  observadora!
	No estou brincando. Falo srio, voc parece fazer parte da vida marinha, um verdadeiro peixe dentro d'gua!
	Realmente, mergulhar  o que sei fazer. Mergulho desde os sete anos. Est no sangue da famlia esta afinidade com a vida marinha. Meu bisav iniciou uma firma de resgate de navios e salvamento h mais ou menos cem anos. E, hoje em dia, com as invenes modernas e a alta tecnologia, as possibilidades passaram a ser infinitas. J ouviu falar da TMI, Trehearn Marine International?  Diante do gesto afirmativo de Gergia, ele continuou:  Nossa companhia resgatou os tesouros do galeo espanhol da Companhia das ndias no ano passado.
	Acho que me recordo.
	Mas a TMI tambm lida com explorao de petrleo, oceanografia, pesquisas e outras atividades relacionadas ao oceano, claro. Meu antigo hobby, que acabou se transformando em profisso,  proteger a vida marinha do planeta. Uma tarefa nada fcil, num mundo cada vez mais destruidor.
Gergia estava surpresa com a nova faceta de Nathan. Mesmo j tendo ouvido falar da Trehearn Marine, no imaginava que ele fosse to atuante.
	Mas estudou na Universidade de Princeton!
	E verdade. Sou um homem de muita sorte... tive inmeras oportunidades. Meu pai sempre tocou a companhia sozinho e com sucesso, porm, ultimamente, comeou a demonstrar vontade de descansar. E isto quer dizer que, mais cedo ou mais tarde, terei de assumir sua posio.
	Entendo... E gosta dessa ideia?
Ele riu, focalizando o horizonte por alguns minutos e depois a encarou novamente.
- Eu sempre soube o que era esperado de mim. E esta, pode ter certeza, no  uma posio digna de inveja.  Suspirando, Nat juntou os apetrechos do lanche.  Agora, chega de conversa mole, e vamos em direo ao sul, onde existe um rochedo que gostaria de lhe mostrar. E mais espetacular ainda.
	Duvido! No pode existir nada mais fascinante do que j vimos.
	Prometo a voc que  a viso do paraso! Desde a primeira vez em que a vi, prometi a mim mesmo que seria eu, e mais ningum, quem lhe mostraria o paraso.
Como que hipnotizada, Gergia no conseguia desviar a vista, consciente apenas de sua respirao acelerada e dos olhos cinzentos fixos em seus lbios.
Finalmente, Nathan virou-se, relutante, para pegar o equipamento de mergulho.
Pelo resto da tarde, ela se deixou levar pelas mos seguras e fortes. Ora nadavam na superfcie, ora mergulhavam nas profundezas para admirar as formaes de corais, ora simplesmente boiavam, observando os cardumes de cores vivas executarem seus bales. Com uma cmara  prova d'gua, Nat filmava tudo.
O mundo submarino era to perfeito e maravilhoso que as palavras ditas por Nat, antes de mergulharem, sempre voltavam  lembrana de Gergia. No ntimo, sabia que no se contentaria com a simples viso do paraso. Queria fazer parte dele.
Observando a figura de porte atltico nadando em sua direo, concluiu que nunca havia conhecido algum como Nathan Trehearn. E, se realmente existisse um paraso na face da Terra, ele seria o homem que a levaria para conhec-lo.

CAPITULO V

De volta ao apartamento, Gergia se deitou para descansar. Quando acordou, sentia-se incrivelmente disposta e feliz. Imvel, na cama, saboreou seu estado de contentamento por alguns instantes, antes de analisar o motivo.
A primeira ideia que lhe ocorreu, a qual descartou de imediato, foi que seu bom humor se devia  expedio-de mergulho. Realmente, fora fascinante, mas no podia ser apenas aquilo. Havia uma outra explicao, e, no fundo, sabia qual era! Flertava disfaradamente com Nat! Apesar de nunca ter achado graa em flertar, na volta do passeio, qualquer um que os visse juntos diria...
Sim! Era melhor encarar os fatos, pensou. A explicao para seu bom humor s podia ser Nathan Trehearn, pois at ento ele no existia em sua vida. Seria to simples assim, como dois e dois so quatro?
Com os olhos semi-abertos e um sorriso maroto nos lbios, espreguiou-se indolentemente. A imagem do corpo viril e bronzeado era to vvida em sua mente que ela deixou escapar um suspiro de frustrao por no poder toc-lo.
Acomodando-se melhor na cama, seus olhos se voltaram para o relgio de cabeceira: estava na hora de vestir-se. Talvez Nat estivesse precisando de sua ajuda para preparar o jantar, j que Ismail e Enna tinham viajado.
Gergia sentiu um arrepio na espinha, ao se dar conta de que no teria seus "anjos da guarda" por perto. Aquela seria a primeira noite sozinha com Nat no apartamento, desde que estava ali.
Ressabiada, levantou-se e abriu as portas do armrio,  procura de uma roupa prtica. Talvez jeans e camiseta? Lgico. Porm, quando esticou a mo, esbarrou sem querer em seu vestido favorito e, no mesmo instante, ficou tentada a vesti-lo. Na verdade, admitiu em seguida, cultivava aquela tentao desde que soubera que Ismail e Enna estariam de folga.
Um vestido simples, ela pensou, rodopiando em frente ao espelho. Oh, como era fcil enganar a si mesma! Mas quem seria capaz de afirmar que um vestido reto, preso nos ombros por duas alas torcidas, no era simples? O charme estava no tecido de seda pura e na estampa de cores suaves! E talvez Nat nem notasse sua sofisticao.
Prometendo a si mesma no se entusiasmar demais, comeou a se maquilar. Dispensou o blush e escolheu um batom de cor clara para realar a pele bronzeada.
Antes de sair do quarto, examinou-se outra vez no espelho. Realmente o vestido no apenas lhe caa muito bem, como estimulava seu bom humor e o ar de abandono feminino em que se encontrava. Ser que estava se viciando naquele tipo de seduo? Viciando?! Que estranho! Ela riu da ideia.
Mas, afinal, o que havia de errado em ser viciada em flerte e feminilidade?
Depois de passar perfume, foi para a cozinha, deixando um rastro de Balenciaga por onde passava.
	Ol, Nathan. J est trabalhando?
Com uma colher de pau na mo, ele se virou, mirando-a da cabea aos ps. O olhar admirado detinha-se em cada detalhe de sua aparncia.
	Voc est...
	Exagerei na roupa,  isso?  perguntou, nervosa.  Bem, no sabia o que usar num jantar nt... em casa.
	De jeito algum!  Nathan tornou a examin-la intensamente.  Est maravilhosa, Gergia. No entanto, para ser sincero, nunca imaginei que necessitasse de aprovao.
Sorrindo, ele largou a colher e, segurando-a pelo brao, dirigiu-se  sala. De um armrio sobre o bar, tirou dois copos de cristal, onde despejou vinho branco.
Ento, virou-se novamente para Gergia e ofereceu-lhe um deles, com uma expresso sria.
	Nunca mais deixarei de ter o prazer de lhe dizer que est bonita.
	Obrigada.
Ela aceitou o copo e imediatamente o levou aos lbios para disfarar o nervosismo. J havia recebido vrios elogios em sua vida, mas jamais sentira aquele efeito devastador.
	Quem fez seu vestido, Gergia?  Nat a fitou, demorando-se nos ombros descobertos.  Voc?
	Apenas o desenho. No fui eu quem o costurou, se essa foi sua pergunta.
	Oh, claro! Que ingenuidade a minha!  que sempre imaginei as estilistas de moda debruadas horas a fio sobre uma mquina de costura, como perfeitas escravas! Pelo visto, estou totalmente errado, no?
	Um pouquinho, se  que est sendo sincero. E, se desconhece mesmo o assunto, nunca lhe ocorreu que artistas tambm trabalham duro?
Nat ergueu uma sobrancelha, divertido.
	Bem...
	Eu sabia!
	Digamos que um estilista signifique para mim o mesmo que um oceanografista para voc.  como falar grego, certo?
	Ainda assim, acho difcil acreditar em sua ignorncia, embora a comparao seja verdadeira. Bem, durante nosso curso, alm de desenharmos os modelos, tnhamos de costurar a pea. Para ser sincera, eu detestava essa parte. Sempre me interessei mais pela histria da moda porque retratava os costumes de cada poca.
	Entendo... Como pode ver, realmente sou um ignorante nesse assunto.
	Nat, s vezes, voc me surpreende por...
Gergia parou no meio da frase. Talvez ele no gostasse de ouvir que ela se impressionava com sua elegncia. Embora no entendesse nada de moda, como ele prprio afirmara, Nathan era a essncia do modelo do sculo XX. A cala de algodo escura, que usava naquele momento, no poderia ser mais charmosa e combinar tanto com a camisa de seda de mangas largas. Alis, a figura viril era muito mais atraente do que supusera logo que se conheceram.
A constatao despertou sua vontade de acariciar-lhe o peito sob a camisa entreaberta. A sensao devia ser delici...
	De que maneira eu a surpreendo, Gergia?
	O qu?!  Ela corou, percebendo que seus dedos tremiam ao redor do copo.  Bem, pensei que soubesse tudo sobre moda e confeco! Como j disse antes, tive a impresso de que voc dominasse todos os assuntos.
	Pois, a partir de hoje, minha responsabilidade para com os alunos vai dobrar!
	Com certeza. Alis, eles vo adorar ter uma aula sobre moda! E, por falar em trabalho escravo, pensei que fosse ficar debruada sobre o fogo horas e horas, em vez de tomar vinho tranquilamente. No precisa de ajuda?
	Que pena!  ele brincou.  Agradeo a boa vontade, mas Enna deixou vrios pratos prontos no congelador. Pelo visto, voc est to faminta quanto eu. Vamos comer?
A mesa de tampo de vidro j estava posta com jogos americanos de linho bordado e talheres de prata na sala de jantar. Um candelabro no centro iluminava o ambiente, dando um toque de intimidade. Nat puxou a cadeira para ela e serviu-lhe sopa de lentilha.
	Hum... E um perfeito maitre tambm!  Gergia brincou, quando ele finalmente se sentou.
	Tambm, por qu? Trabalhei duro numa lanchonete enquanto cursava a faculdade.
	Ora, vejam s! Voc continua me surpreendendo. Eu pensava que somente jovens humildes trabalhavam para estudar.
	Fui um estudante pobre, Gergia. Meu pai jamais mimou os filhos. E quanto a voc? No trabalhava durante as frias?
	Algumas vezes... J trabalhei embalando frangos, acredita? Ns, as moas, ficvamos enfileiradas perto de um balco, colocando elsticos nas pernas dos frangos mortos.
	Devia ser engraado.
	Horripilante, isso sim! Bem, tambm havia o lado divertido, claro. Uma das moas tinha uma vida amorosa bem intensa, e todas as manhs ouvamos histrias com os mnimos detalhes do que havia acontecido na noite anterior. Talvez fosse tudo inveno, no sei. Mas ajudava a distrair.
	Parou de comer carne de frango nessa poca?
	No...  ela respondeu, lembrando-se de que as histrias erticas a afetaram mais que o trabalho. Porm, no queria expor sua vida sexual para Nat.  No permaneci muito tempo nesse emprego.
	Que sorte! Quanto a mim, deixei de comer carne durante um bom tempo. E, por falar em carne, acabo de me lembrar do forno!  Gergia fez meno de levantar-se. No se levante! Hoje, o escravo sou eu.
Pouco depois, ele voltou com uma travessa de bolinhos de carne de carneiro, conhecidos como kebabs, e salada de alface.
	Est cheiroso!
	Realmente  ele falou, sentando-se novamente.
Em seguida, comeram em silncio, at que Nat pediu:

	Mas me conte, Gergia, seu pai  um oficial do Exrcito, segundo me disse. Vocs mudavam muito de cidade?
	Ele, sim, ns, no. Meus pais se divorciaram quando eu tinha nove anos, e nessa poca fui estudar num colgio interno. Tenho uma irm, Lissa, bem mais velha do que eu, que continuou morando com minha me e meu padrasto. Eu os visitava apenas nas frias.
	E manteve contato com seu pai?
	Trs anos atrs, passei as frias de vero com papai, na Austrlia. Oh, foi maravilhoso! Dessa poca em diante, ficamos muito amigos. Ele j se aposentou e mora na Inglaterra atualmente. Minha me e meu padrasto moram na Esccia, e Lissa, no Pas de Gales com o marido. E voc? Tem irmos?
Sem responder, Nathan pegou os pratos vazios e levantou-se abruptamente.
Gergia ergueu a vista, pronta para repetir a pergunta, mas, notando-lhe os msculos da face tensos, achou melhor ficar quieta.
	Tive um irmo mais novo do que eu  ele falou da porta da cozinha.  Morreu num acidente de esqui.
	Oh! Sinto muito.
Havia quanto tempo teria acontecido o acidente? A dor estampada na fisionomia de Nathan era to visvel que ela sentiu um n na garganta, incapaz de dizer mais nada.
Quando ele retornou da cozinha com o caf, parecia mais calmo e convidou-a para irem  sala de estar.
	Obrigada pelo passeio, Nat  ela agradeceu, procurando distra-lo e retomar o clima de descontrao entre eles.  Que experincia maravilhosa! Foi muita bondade sua me levar para mergulhar.
	Acha mesmo que fiz isso por bondade?!
Gergia ergueu os olhos e estremeceu. Nat, mais bonito do que nunca, fitava-a com um brilho intenso no olhar e um sorriso estonteante. A beleza dele no tinha nada de convencional, mas era incrivelmente atraente.
	Do jeito que voc fala, at parece que o insultei  ela ironizou, para disfarar.  Acontece que foi bondade sua me receber nesse apartamento quando eu no sabia para onde ir e tambm quando deixou de trabalhar, perdendo seu tempo precioso para passear comigo!
O tom de desafio entre eles a atraa ao mesmo tempo que despertava sua timidez. Principalmente quando ambos estavam conscientes da provocao. Ou flerte?
Naquele momento, Nat parecia zombar de sua ingenuidade. Sentindo o rosto corar, ela desviou o olhar, colocando a xcara sobre a mesa de centro.
	Lembra-se do que eu disse quando nos conhecemos, Gergia?  Ele perguntou, inclinando-se para acariciar seus lbios trmulos.  Caso eu no tivesse tomado a iniciativa, seus admiradores teriam feito fila para mostrar-lhe os prazeres de... Raqat.
	E eu...
E voc...  ele continuou, abaixando as mos. Ter de me aguardar porque vou estar ocupado nos prximos dias. Entretanto, na prxima semana, daremos continuidade a nossa explorao, com certeza.
Prxima semana? ela pensou, sentindo uma dor sbita no peito. Sua viagem de volta  Inglaterra estava marcada para segunda-feira! Teria de contar a ele, mas no naquele momento. E nem pensaria mais sobre o assunto.
A claridade fraca, vinda da sacada, sombreava de forma irregular as paredes, os mveis e os objetos de arte, transformando a sala num ambiente misterioso.
Afundada no sof macio de couro, Gergia tinha a exata sensao de estar dentro de um casulo. Porm, todos os seus sentidos estavam em alerta, e at aguados, pela influncia da msica escolhida por Nat. Os sons indecifrveis de instrumentos desconhecidos provocavam uma perturbao devastadora em seu ntimo. O que estaria acontecendo com ela?
De repente, Nathan se sentou a seu lado e apoiou o brao no encosto do sof. Automaticamente, ela se afastou para o canto oposto, embora seu desejo fosse procurar o aconchego do peito viril.
	Gergia, aquele homem...  Nat esticou o brao, acariciando de leve seus ombros nus.  Voc no deveria deixar que ele a influenciasse. Ou que a fizesse acreditar que todos os outros so predadores.
	Oh, no!  Encabulada, ela sorriu. Ser que Nat estava ouvindo as batidas fortes de seu corao?  Nunca pensei isso.
	Pois saiba que no tenho inteno de seduzi-la.
	No?
Embora pretendesse ser sarcstica, a voz soou desolada, o que de fato acontecia. E aquela constatao a irritou. Tinha vinte e seis anos e ainda agia como uma perfeita adolescente, acanhada e frustrada, sem coragem de encarar os prprios sentimentos.
	O que posso fazer por voc?  ele insistiu.  Diga-me, Gergia.
	No faa nada, Nat  ela respondeu secamente e depois levantou-se, fitando-o com raiva.  No h nada que possa fazer.
Ele se levantou tambm, colocando-se na frente dela.
	Ainda  muito doloroso falar sobre o assunto, no ?
O rosto de Nat estava sombreado, e, numa espcie de pesadelo, ela o imaginou um caador prestes a pegar sua presa. No fundo, seria aquele seu desejo?
	Gergia.  ele chamou, notando seu olhar parado.
	Como?  Assustada, ela percebeu que no estava numa floresta, procurando um esconderijo.  Oh, sinto muito, no entendi...
	No quer falar sobre esse homem que a fez sofrer?
Que feriu seu corao, a ponto de cruzar continentes na tentativa de esquec-lo?
	Hum!  Ela sorriu, s ento entendendo a preocupao dele.  Para ser franca, j esqueci Jordan completamente. Hoje, vejo que no estava envolvida de verdade.
	Fico muito contente. No imagina quanto, Gergia!
	E o que isso significa?
	Significa...  Ele apoiou uma das mos nos ombros dela e com a outra alisou seu rosto, fazendo-a estremecer.
 Significa que quase morri de cime quando me contou sobre Jordan.
	Nunca pensei...
Realmente, ela no havia pensado, e sim desejado e sonhado com aquela confisso. Embora o corao batesse, descompassado, a mente se negava a acreditar que sua alegria fosse real.
Num impulso, ergueu a mo e roou os dedos no rosto de Nat. A sensao da pele quente despertou-lhe um prazer indescritvel.
Seu lado racional jamais permitiria aquele gesto, pois fora educada num colgio de freiras. Mas, felizmente, o instinto falava mais forte...
Nat a puxou para perto e a beijou com ardor. Momentos depois, murmurou:
	Gergia... Voc sabe aonde isto vai nos levar, no?
Ao ouvir seu nome sendo pronunciado com tal delicadeza e urgncia, ela fez o que teve vontade de fazer a noite inteira: comeou a acariciar o peito msculo.
	Sei onde quero que termine, Nat.
E tambm onde queria que iniciasse, ela pensou, quando: ele a pegou no colo e comeou a caminhar na direo do quarto.
De repente, um barulho longo e insistente ecoou na sala,  perturbando a paz do apartamento. Sem dar importncia, Gergia resmungou e aninhou-se mais ainda nos braos musculosos que a carregavam. No queria se separar...
De novo, o mesmo barulho soou insistente.
 Cus, o telefone!  Nathan exclamou, colocando-a no cho, em p, com delicadeza.  Sinto muito, Gergia,  um chamado em minha linha especial. Preciso atender, mas no saia da.
Ela parou  porta do escritrio, enquanto Nathan, apressado e sem acender as luzes, atendia ao telefone.
	Al? Freddy? Sim, isso mesmo. Entendo... Bem, estive mergulhando o dia inteiro. No, no d seu consentimento em hiptese alguma. Claro, isso significa um retrocesso no planejamento todo. Absolutamente, essa afirmativa est errada. Como? Freddy... no estou sozinho. Tem certeza? Tudo bem, estarei a dentro de meia hora.
Nat desligou o aparelho e permaneceu quieto durante alguns minutos, que para Gergia pareceram horas.
	Era Freddy, o sheik  explicou, aproximando-se dela.  Vamos ter de sair, Gergia.
Se, por um lado, ela se desapontou porque preferia permanecer no apartamento, por outro, sentiu um grande alvio por Nat ter falado no plural, incluindo-a no passeio. No entanto, temia demonstrar seus sentimentos.
	Tem certeza?
	Infelizmente, preciso ir.  Nat a abraou.  E gostaria que fosse comigo. No vai se arrepender, prometo. Mas quem resolve  voc. Talvez esteja cansada e prefira ficar, afinal, tivemos um dia de muita atividade.
A ideia do cansao era absurda. Nunca se sentira com tanta vitalidade como naquele momento.
	Oh, no! No estou nem um pouquinho cansada.
	Ento, vamos juntos.
	Aonde?
	A um lugar muito especial. Sempre quis visitar o deserto, no ? De vez em quando, num impulso de bom anfitrio, o sheik organiza o que ele chama de "piquenique" para os estrangeiros. Na verdade, trata-se de uma reunio bem diferente de um piquenique. Ele a convidou tambm. Quer ir?
	Claro!
	Oh, os costumes daqui so rigorosos... Voc tem alguma roupa mais fechada? A faceta ocidental de Freddy apreciaria seu vestido, mas seus colaboradores poderiam pensar que... Tenho, sim!  ela o interrompeu, entusiasmada.  Outro dia, comprei um cafet num bazar do centro para dar de presente a minha irm. Vou vesti-lo.
Ainda bem que ela e a irm tinham quase o mesmo corpo, Gergia pensou, colocando o cafet preto por cima do vestido. Ricamente bordado com fios dourados no decote e na barra, ajustava-se levemente na cintura.
Antes de sair do quarto, deu uma olhada no espelho. Ficou impressionada com sua elegncia, apesar de a roupa ter custado uma ninharia. Reforou o perfume e, ansiosa, foi procurar o "amo".
Nathan a aguardava no hall de entrada. Ele acrescentara s roupas que usava apenas um blazer azul-marinho. Ao v-lo to alinhado, o corao de Gergia disparou. Ser que ele tinha conscincia do que se passava em seu ntimo?
Guiada unicamente pelo instinto, ofereceu-lhe o rosto para ser beijada.
	S agora entendo a importncia de uma estilista, Gergia. Est to atraente que chego  concluso de que sou um louco em querer sair daqui. Gostaria de esquecer o resto do mundo e ficar sozinho com voc.
Inclinando-se, ele a beijou com paixo, explorando cada milmetro dos lbios sedosos.
	Nathan, eu...
	J lhe falei que meus amigos me chamam de Nat, querida.
	E quem disse que tenho inteno de... ser sua amiga?
Ele a fitou, com carinho.
	Pois pensei que nossa amizade estivesse fazendo progressos!
	Eu tambm, mas, como estou sendo forada a sair, comeo a duvidar...
	Tambm gostaria de ficar aqui, no ?
	Sim.  Com um olhar meigo, ela acariciou a face recm-barbeada e os lbios entreabertos.  Muito mais do que imagina.
	Vou me lembrar de cada uma de suas palavras, prometo. E prometo tambm tomar certas atitudes mais tarde... Porm, agora, precisamos ir, meu bem, porque se continuarmos mais um minuto aqui...  Ele a beijou novamente.
 ...Posso jurar que no iremos a piquenique algum. E ser uma pena voc perder esta oportunidade.
Ento, ele abriu a porta, e Gergia saiu, relutante.

CAPITULO VI

Em vez do automvel, Nathan preferiu seu jipe de trabalho, com trao nas quatro rodas.
Muito lentamente, cruzaram o centro movimentado da cidade, depois percorreram alguns quilmetros da rodovia costeira e em seguida desviaram para uma trilha irregular e perigosa, ladeada de dunas altas.
Logo aps o desvio, a lua cheia surgiu bem  frente deles, serena e imponente, destacando-se contra o cu negro, salpicado de estrelas cintilantes.
Gergia admirava a vista maravilhosa quando, aps um morro ngreme, o deserto apareceu, como um imenso tapete de areia, to grande quanto a eternidade.
	Pare!  ela pediu de repente.  Por favor, Nat... Quero guardar para sempre na lembrana esta viso.
Sem o barulho do motor, a inrcia aparente do deserto era impressionante. Gergia prendeu a respirao, temendo perturbar o silncio absoluto. Tinha a exata sensao de que sua existncia inteira fora apenas um preldio para aquele momento.
As colinas de areia esculpidas pela intemprie ora mostravam-se iluminadas, ora imersas na sombra negra e profunda. Nenhuma obra de arte feita pelo homem jamais chegaria aos ps daquela perfeio, ela pensou.
	Oh! Nat!  Suspirou, segurando na mo dele.
	Sim,  difcil acreditar e humanamente impossvel expressar em palavras, a no ser para os poetas.  Ele beijou
sua mo com carinho.  Sentimos algo indefinvel sob a pele, cuja sensao nunca mais perderemos. E temos a impresso de estarmos diante de um verdadeiro passe de mgica, principalmente numa noite como a de hoje, no ?
Totalmente hipnotizada, Gergia no respondeu. Respeitando-a, Nathan deu a partida no jipe e saiu devagar para no perturbar seu deleite.
Subitamente, porm, do alto de uma colina, avistaram um mundo diferente, semelhante a um conto de fadas. A medida que desciam pela duna, a paisagem erma ia se transformando num vale verde de nuanas indefinidas, apinhado de palmeiras, espelhos d'gua e runas de construes antigas.
Um osis! O corao pulsante do deserto e o palco de histrias durante mais de dois mil anos! Abrigo protetor contra o sol escaldante para os viajantes das caravanas no lombo de camelos!
Com certeza, deviam ter acontecido muitas guerras para dominar aquele pedao de terra, Gergia divagava quando uma viso estonteante quase lhe tirou o flego.
Sobressaindo a tudo, emergia da areia plana uma tenda preta de propores gigantescas, digna dos cenrios de Hollywood. Em toda a borda do teto ligeiramente abaulado, pendiam soltos ao vento minsculos pingentes dourados. Pelas laterais amplamente abertas, tochas flamejantes lanavam um brilho especial aos gros de areia.
No mesmo instante, Gergia imaginou garanhes rabes pastando a grama, enquanto camelos cobertos com ricos tapetes persas, descansavam perto das runas.
Ao contar a Nathan, ele apenas sorriu, apontando para a frente, enquanto contornava a tenda para estacionar o jipe. Ela olhou e ento entendeu o motivo do sorriso.
Uma coleo de Rolls-Royce modernos, com as peas de cromo luzindo, enfileirava-se lado a lado no estacionamento. No mesmo instante, associou a opulncia e a ostentao ao conto As Mil e Uma Noites. E, como no podia faltar, na entrada principal da tenda, havia uma passadeira vermelha, trabalhada em fios de seda.
Primeiramente, Nat apresentou-a ao sheik. Bastante impressionada, Gergia notou um certo carisma na figura alta, elegante e de barba escura, cujos olhos negros e brilhantes a analisaram com intensidade. Embora usasse cafet e turbante, o sotaque ingls e as maneiras eram de uma pessoa recm-chegada de Oxbridge.
	Bem-vinda a Raqat, srta. Maitland. Peo desculpas pela minha intromisso em sua noite, mas fiquei muito contente por terem atendido prontamente a meu chamado.
Ser que havia um qu de ironia no tom dele?, Gergia se perguntou, descartando a ideia em seguida.
	Foi muita bondade ter me convidado, Excelncia.
	Espero que se divirta.  O sheik inclinou a cabea num cumprimento srio e depois virou-se para Nathan.  Nathan, por favor, leve-a at Mina.
Mina, a irm mais velha do sheik e que tambm falava ingls fluentemente, apresentou Gergia s demais mulheres da festa, na maioria, moas jovens e bonitas, usando o tradicional vestido longo e vu, encobrindo parcialmente o rosto. Uma ou outra vestia-se  moda europeia, mas com extremo recato, sem nunca deixar  mostra os braos, as pernas ou o colo.
Graas  orientao de Nat, Gergia no se sentiu vulgar no meio delas.
Enquanto bebericava o coquetel, um extico suco de frutas e licor, seus olhos procuravam Nathan constantemente. E, apesar de conversar nas rodas masculinas, ele correspondia a seus olhares clandestinos com mensagens secretas. Uma experincia nova e excitante que ela considerou sugestiva dentro daquele ambiente.
Pouco a pouco, os convidados foram se acomodando nos sofs de couro, e Gergia os seguiu, preferindo as almofadas de aparncia confortvel, colocadas sobre o tapete.
Mal acabara de sentar-se, sentiu uma carcia extremamente sensual nas costas. No mesmo instante, seu corao disparou, e um arrepio percorreu-lhe a espinha. Sabia muito em de quem se tratava, mas no o deixaria perceber sua reao ridcula.
Controlando-se, Gergia olhou para trs e deu um sorriso discreto.
	Ol, Nathan.
	Ol!  Ele se sentou a seu lado, fixando o olhar em sua boca.  Est sobrevivendo?
Por que ele tinha de olh-la daquela maneira?, ela pensou, sentindo a resoluo de esconder seus sentimentos evaporar num segundo.
	Mais do que isso.  Num gesto amplo, ela indicou os principescos tapetes persas das paredes e os metais dourados, refletindo as tochas incandescentes. Voc estava certo, Nat. Seria uma pena se eu tivesse perdido tudo isto e...
Naquele momento, um garom aproximou-se, depositando uma bandeja de canaps em uma mesa prxima. Gergia se serviu, procurando ignorar a centelha de desejo nos olhos atentos de Nathan.
	E?  ele insistiu, ao ficarem a ss.
	Estou muito contente, porque finalmente encontrei a fonte de inspirao que me faltava. O estmulo para minha criatividade!  Diante do olhar surpreso, ela sorriu com ar de pura inocncia. Afinal, como j disse, foi por este motivo que fiz a viagem.
	Oh, sim, claro! Foi justamente isso que pensei quando a levei para mergulhar e quando decidi traz-la comigo. Alis, tenho em mente vrias outras ideias que vo lhe inspirar ainda mais...  Ento, ele pegou um canap da bandeja e colocou-o delicadamente entre os lbios de Gergia.
Enquanto o saboreava, ela pensou que talvez devesse mudar de assunto. Algum mais prximo poderia perceber que flertavam.
	Nat, voc... resolveu o problema com o sheik?  perguntou, indecisa.
	No era propriamente um problema.  Ele sorriu, notando sua confuso.  Na verdade, ele queria apenas meu apoio para uma deciso que havamos tomado h algum tempo. Algum estava sugerindo mudanas. Porm, est tudo sob controle agora.
	Que bom  ela falou, prestando ateno num grupo de homens que conversavam, animados, do qual participavam o sheik e a irm, que parecia enfrent-los de igual para igual.  O sheik tambm  oceanografista, Nat?
	No.  Nathan acompanhou-lhe o olhar.  Freddy se graduou em matemtica, e Mina se formou em qumica. Alis, ela  muito competente. Foi nomeada h poucos dias para ocupar o cargo de conselheira-chefe do Departamento de Desenvolvimento da Indstria do Petrleo.
	Puxa! Eu nunca teria imaginado!
	Admite ento que este reino no  retrgrado como pensava? Que aqui no existe nem machismo nem chauvinismo?
	Eu no diria...
	Ora, confesse que fez um julgamento apressado. Pode imaginar um governo ocidental tendo coragem para nomear uma mulher para um departamento desse porte?
	No posso prever o futuro...  ela se esquivou.  Mas confesso que estou impressionada e admiro Mira. Pelo que disse, parece uma pessoa formidvel e inteligente. Digo o mesmo do sheik por sua coragem. Deve ter sido difcil tomar essa deciso, frente a tantos homens.
	Na verdade, no foi. A av de Freddy introduziu a educao primria obrigatria para meninas, e a me foi chefe do Departamento de Medicina do reino. Como v, a emancipao da mulher aqui no  nenhuma novidade!
	Ora, voc...
Ela o empurrou de leve e, em seguida, sondou ao redor com medo de ter cometido uma indiscrio. Por sorte, todos olhavam para um grupo de msicos que acabava de chegar.
	Calma  Nat murmurou em seu ouvido.  Vamos ver a dana extica agora.
	Oh!  Gergia suspirou. No tinha a mnima disposio para ver a dana do ventre.  Temos mesmo de ficar para a dana, Nat? Estou to cansada...
Ele a encarou com intensidade, fazendo-a corar.
	Tambm sinto o mesmo cansao que voc, Gergia. Ela notou que o tom de voz contradizia as palavras dele.
	Mas seria indelicado sairmos agora. Esse tipo de show no  longo, e acho que vo apresentar uma dana clssica.
Quando h convidados estrangeiros, as danas exticas so consideradas inadequadas pelos padres rabes.
Os msicos deram incio a uma msica peculiar dos bazares, tocada com instrumentos de corda. Pequenos sinos presos aos quadris das danarinas intensificavam o ritmo popular. No auge da dana, as mulheres giravam rpido e com destreza, hipnotizando a plateia que acompanhava a msica com palmas.
O show representou para Gergia o ponto culminante de um dia repleto de novidades que jamais esqueceria, nem se vivesse cem anos.
Porm, suas foras haviam se exaurido, e, somente ao trmino da dana, ela percebeu que estava recostada em Nat.  Vamos embora?  Ele se levantou, oferecendo-lhe a mo.  Voc deveria estar em casa a esta hora. E na cama. Ao ouvir a ultima palavra, ela sentiu o rosto corar e virou-se, dando um passo para que ele no percebesse nada. Despediram-se do sheik e da irm e saram abraados. Gergia apoiara a cabea no ombro de Nathan. Perto do lago, pararam para admirar o veio de guas cristalinas, correndo sobre uma pedra grande. A lua cheia parecia acompanhar o fluxo da gua.
De repente, ele se virou e tomou-lhe a face entre as mos.  Gergia, jamais me esquecerei deste dia e desta noite. E voltaremos aqui sozinhos,  uma promessa. Quero lhe mostrar todos os aspectos do deserto e todas as variaes. V aqueles picos, l no alto? Quero lev-la at l, para nadarmos num lago escondido de gua fria e cristalina. Oh, quero fazer tantas coisas junto com voc!
Ele a beijou de leve e por um instante explorou os lbios doces. Ela correspondeu ao gesto e ficaria ali para o resto da vida, mas Nat se afastou, levando-a para o carro.
A viagem de volta foi rpida. O movimento das ruas j diminura, e Gergia comeou a sentir-se nervosa e tmida quando se aproximaram do prdio. E mais ainda quando se viu sozinha com Nathan no elevador.
O que aconteceria quando fechassem a porta do apartamento? Talvez o momento mgico houvesse passado. Ou, talvez, ele tivesse levado a srio seus protestos de cansao. Tentando conter a ansiedade, Gergia entrou no apartamento, e dirigiu-se para a sala de estar. Em seguida, com certa relutncia, tirou o cafet.
	Foi muito apropriado eu ter ido com o cafet por cima do vestido  falou, dobrando-o.  Mas  melhor eu comprar
outro presente para Lissa. Acho difcil uma fazendeira, no Pas de Gales, encontrar ocasio para us-lo.
	Voc deveria guard-lo como lembrana de uma noite especial.  Fitando-a, Nathan tirou a roupa de suas mos e colocou-a sobre uma cadeira. Em seguida, segurou Gergia pela cintura e puxou-a para si.  Encontrar bijuterias lindas nos bazares do centro para Lissa.
	Acho que...
Os olhos cinzentos a hipnotizavam. Ela no conseguia falar e tampouco pensar. Apenas retribuiu o olhar.
	Oh, Gergia, querida...  ele sussurrou, acariciando-lhe os cabelos.  Por que perdemos tanto tempo naquela festa? Devamos ter ficado aqui.
	No posso responder a essa pergunta, Nat. Fui contra, lembra-se? Minha vontade era...
Ela o beijou com um ar maroto e enfiou a mo por dentro da camisa dele para lhe acariciar o peito, sentindo na ponta dos dedos a pulsao forte e acelerada de seu corao. To forte quanto a dela.
	Ser que entendi direito, Gergia? Arrependeu-se de ter visto o deserto?  Ele lhe segurou as mos, prendendo a respirao.  Arrependeu-se de ter conseguido a inspirao para sua criatividade e de ter experimentado algo que guardaremos na lembrana para sempre?
	Oh, no! S estou dizendo que a escolha no foi minha...
	Ah, entendi... Quer recomear do ponto onde paramos h trs horas?
E, antes que ela pudesse responder, Nat a pegou no colo e a carregou para um quarto que era muito parecido com o dela. Com uma nica diferena: em vez de duas camas, havia apenas uma de casal, forrada de chintz azul.
	Voc tem certeza do que deseja?   ele perguntou, cobrindo-a de beijos.
	Sim.
Os coraes batiam com violncia num compasso nico. Nathan a ps no cho delicadamente e a segurou pelo queixo, ento, sem resistir, ela lhe ofereceu os lbios entreabertos, surpreendendo-se com sua prpria falta de acanhamento.
Deixou-o explorar cada milmetro de sua boca, enquanto as mos acariciavam os seios intumescidos.
Como nenhuma teoria se comparava  prtica, nenhum livro ou nenhuma histria ouvida pelas amigas fez jus ao prazer alucinante que sentiu naquele momento. O desejo de se entregar a Nat a corroa.
Com movimentos lentos, ele abriu o zper do vestido de Gergia e afastou as alas de seus ombros, fazendo com que a roupa casse ao cho.
Ela imaginou que fosse sentir-se tmida, culpada e cheia de pudor, mas nada disso aconteceu. Ao contrrio, os sentimentos dominantes eram de impacincia, anseio e conscincia plena de sua sensualidade, at ento contida.
Ajudou-o a desabotoar a camisa, e, quando suas mos tocaram o peito viril, sentiu uma alegria indescritvel. Ento, instintivamente, encostou a face no pescoo dele, aspirando o perfume msculo e inebriante.
	Oh, Gergia!  Nat segurou suas mos e, virando-as para cima, beijou-lhe as palmas.  Tem ideia do que est fazendo comigo, amor?
1 Talvez o mesmo que faz comigo... Sem comentrios, ele a levou para a cama e se deitou a seu lado, voltando a acariciar-lhe a curva dos seios.
	Sabe...  Nat murmurou entre um beijo e outro.  Sempre desejei ficar assim, como agora. Desde o primeiro dia em que a vi l embaixo, no saguo.
	No acredito  Gergia disse, surpresa.  Voc no deixou transparecer nada.
	Se estivesse preparada para ver, teria notado.
	Oh, Nat... mas voc prometeu...
	O qu, amor?
	Sem laos ou compromissos e...
	E?
	Acreditei em sua sinceridade.
	Mas fui sincero. Vou lhe provar isso.
Segurando os braos dela, Nathan se inclinou e continuou a beij-la, primeiro com ternura e depois com crescente paixo, desde o rosto e os cabelos at os ombros, os seios e as coxas.
Gergia nunca imaginara que aquelas carcias pudessem lhe despertar tantas emoes. Sem se conter, soltou uma das mos e correu lentamente a ponta dos dedos pelas costas musculosas.
	Gergia...  Nathan sussurrou, mordiscando-lhe os seios, enquanto ela arqueava o corpo.
	Oh, Nathan... Nunca sonhei que pudesse ser to maravilhoso.
	Prometo a voc que ser inesquecvel...  Ele ergueu a cabea, fitando-a.
Em seguida, deixando-se levar pelo turbilho de sensaes enlouquecedoras que os dominou, ele continuou fazendo promessas... Prometeu-lhe o cu, as estrelas, o paraso...

CAPITULO VII

A luz forte do sol j penetrava atravs da cortina, quando Gergia acordou.
De costas na cama, ela sorriu de felicidade, correndo os olhos pelo ambiente semiconhecido. Ao lado, sobre uma poltrona de veludo azul, jazia seu vestido e uma nica pea de lingerie: a calcinha branca rendada. Seu rosto enrubesceu, ante a lembrana da noite anterior.
Ela suspirou. Algo de extraordinrio acontecera em sua vida, uma experincia sublime. Ainda sorrindo, pegou o travesseiro onde a cabea de Nat estivera apoiada e, num impulso, encostou-o na face. Ento, aspirou o perfume e abraou-o com fora.
De repente, recordou-se de que se encontrava sozinha no apartamento. Nathan a acordara logo cedo com um beijo suave na boca e informara:
	Preciso ir, amor.
	Oh, no, por favor.  Ela acariciara o peito msculo, fitando-o com atrevimento para persuadi-lo a ficar na cama.  No v ainda, Nat.
No mesmo instante, gemendo de prazer, ele se apoiara sobre o cotovelo, afastando uma mecha de cabelos do rosto dela, cobrindo de beijos suas plpebras, a face e a boca. Depois, com um suspiro mais profundo, inclinara-se sobre ela.
Gergia, por sua vez, abraara-o para sentir a pele quente de encontro aos seios, ansiosa para deleitar-se de prazer mais uma vez. Suspirando de.felicidade, rendera-se totalmente, concluindo que ambos eram vtimas do mesmo poder de seduo.
Momentos aps atingirem o clmax, Nathan, finalmente, levantara-se, enquanto ela continuara deitada. Primeiro, revendo cada cena, relembrando cada sensao, e depois acabara dormindo novamente.
Olhando para o relgio de cabeceira, viu que era tarde. Levantou-se e tomou banho. Ainda assim, continuava com a sensao de prazer no corpo. Cada vez que passava diante de um dos espelhos do apartamento, via o prprio sorriso e um inconfundvel ar misterioso em seu semblante. Um ar de felicidade!
Ela suspirou, lembrando-se de que Nat, antes de viajar, dera-lhe um outro beijo rpido de despedida. Ainda podia sentir o rosto recm-barbeado encostado ao seu. O perfume dele persistia em sua memria. Fora difcil controlar-se e no o seduzir outra vez, atraindo-o para a cama!
 Voltarei assim que puder, querida  ele sussurrara em seu ouvido.  No sei como vou viver os prximos dias sem voc, amor.
E, pressentindo o perigo iminente, Nathan sara rpido. No mesmo instante, ela o transferira para seus sonhos.
Ainda bem que Ismail e Enna ainda no haviam retornado do passeio, caso contrrio no poderia circular pelo casa  vontade e com roupas ntimas. Alm disso, na solido do apartamento, teria tempo para considerar o que lhe acontecera, pensar nas consequncias e no futuro...
Pensativa, foi para a cozinha preparar um lanche leve para driblar o calor escaldante. Lavava o alface, quando de repente a campainha da porta soou.
Seria Nat? Com uma sbita esperana, Gergia fechou a torneira, correu at o quarto, vestiu um robe e dirigiu-se ao hall. Talvez ele tivesse cancelado a viagem por algum motivo! Que tolice!, pensou em seguida, caindo em si. Nathan jamais tocaria a campainha, pois possua a prpria chave.
Ainda assim, quando abriu a porta e se viu diante de um entregador, no pode impedir-uma certa decepo. Porm, animou-se quando notou que o rapaz carregava um ramalhete de rosas. To perfeitas como jamais vira igual.
Ela agradeceu, fechou a porta e destacou o pequeno carto preso na lateral. Sorrindo, abriu o envelope e leu:
Querida Gergia,
Obrigado pela noite encantadora. Estarei a seu lado antes do que imagina. Quero que compre um vestido, o mais lindo que encontrar. Tenho um assunto especial para conversarmos.
N.
Durante alguns segundos, sua mente ficou paralisada. Um vestido? Uma conversa? O que Nathan queria dizer com aquilo? Logo em seguida, lembrou-se do incio do relacionamento e deu asas  imaginao...
Ele mencionara naquela ocasio uma proposta?! Proposta ou pedido? Indecisa, releu o bilhete. Nathan lhe pedia para comprar um vestido especial. Raciocinando com frieza, aquele pedido s poderia ter um significado.
Esquecida da salada e cantarolando de alegria, ela se arrumou, apressada, decidida a procurar o vestido naquele momento. Antes de sair, porm, parou no hall e procurou lembrar-se das lojas conhecidas da cidade. Se Nat queria v-la dentro de um vestido surpreendente, s havia uma butique realmente charmosa e exclusiva em Raqat. J a visitara uma vez e sabia que l tudo custava uma verdadeira fortuna. Talvez no tivesse dinheiro para pagar nem um simples leno de seda, mas e da? Usaria seu carto de crdito, decidiu, abrindo a porta.
Afinal, quando um homem como Nathan Trehearn enviava rosas, acompanhadas de uma mensagem como aquela, uma mulher inteligente no deveria poupar esforos para lhe agradar.
Com um sorriso nos lbios, Gergia se olhou no espelho pela ltima vez e ficou sria. Estaria caindo na velha e conhecida armadilha? Deixando um homem ditar o compasso da msica para que danasse? Possivelmente, pensou, notando que sua fisionomia continuava contente. No havia outra possibilidade ou outro caminho. Ter Nathan Trehearn como par e danarem no mesmo ritmo era tudo o que mais desejava no mundo!
No final da tarde, de volta ao apartamento, Gergia deixou os pacotes na sala e dirigiu-se  cozinha para preparar um ch de hortel.
J tomara a primeira xcara e preparava-se para ench-la de novo quando ouviu o som insistente do telefone, no escritrio de Nat, e correu para atender.
	Alo?
Ciente de que apenas o sheik e seus funcionrios tinham acesso quela linha especial, no estranhou quando ouviu um murmurinho em rabe, antes de uma voz feminina indagar, em ingls:
	Srta. Maitland?
	Ela mesma.
	Um momento, por favor. O sr. Trehearn deseja falar-lhe.
	Gergia...
Alm de timidez, Gergia sentiu um arrepio de emoo. Ningum nunca havia falado seu nome com aquela entonao carinhosa e de forma to ntima. Ela se sentiu amada, querida...
	Nathan! Obrigada pelo... pelas rosas maravilhosas!
	Ah, ento chegaram? Eu ia escolher rosas vermelhas, mas no resisti quando vi as salmo. Frescas e serenas, parecidas com voc.
	Fresca e serena?! Eu? De onde tirou essa ideia? O que fiz para voc pensar que sou assim?
	Hum... Estou numa posio privilegiada, conhecendo a verdade sobre voc. E, desde que continue se mostrando to...
	Nathan!  ela o repreendeu, com o corao batendo
forte no peito.
Ele riu, percebendo seu embarao.
	Voc no deveria estar na Sua?  Gergia prosseguiu, mudando de assunto.
	E estou. Na verdade, estou telefonando do escritrio do sheik, neste pas. E, agora, a boa notcia... Voltarei amanh!
	Amanh!
	Voc parece... feliz?
	O que acha?
	Que acertei. Conseguiu comprar o vestido que sugeri?
	Oh, ento era uma sugesto?! Encarei mais como uma ordem.
	Ah, voc acertou tambm! Fico contente por ter captado minha mensagem.
	Bem, comprei um... Ele ...
	No me conte  Nathan a interrompeu, num tom misterioso.  Confio em seu senso artstico e pode dar azar... Gergia, chegarei em Raqat amanh, por volta das nove horas da noite. E muito importante que esteja pronta a essa hora. Vou lev-la para um evento muito especial.
	Oh, Nathan! Voc precisa me contar. No aguento...
	Sem perguntas, Gergia. E uma surpresa.
	Espero que seja agradvel.
	Bem, isso posso lhe afirmar, ou melhor, prometer. Agora, tenho de desligar, querida.
	Oh, no...
	Infelizmente, preciso. Durma bem.
	No vou conseguir fazer isso sem voc. Boa noite, Nathan.
Eu te amo, ela sussurrou, aps colocar o fone no gancho.
Era a primeira vez que fazia essa declarao simples e banal. Declarao antiquada, ultrapassada por outras muito mais extravagantes, especialmente durante os instantes de doce tormento dos casais na cama.
Nathan, com certeza, esperava o momento certo para fazer a mesma declarao. De certo, no fizera por telefone porque seria embaraoso, diante da possibilidade de outras pessoas ouvirem.
Gergia parecia estar nas nuvens. O prazer que sentia era pleno e absoluto. Pudera, os planos de Nathan a levavam a crer que ele iria lhe propor casamento. O que mais poderia pensar depois do que ele lhe dissera ao telefone? Qualquer outra coisa seria uma decepo.
E ela no teria dvida alguma quanto  resposta. J tomara sua deciso.
No dia seguinte, s oito horas da noite, Gergia tremia de nervoso. E se houvesse entendido errado? Nathan podia estar querendo propor... Oh, cus, o qu? Qualquer coisa fora do alcance de sua imaginao, menos casamento! E se ele sugerisse um feriado prolongado na ndia, por exemplo?
Apesar de ter gasto grande parte do dia num salo de beleza especializado em todo tipo de relaxamento, sua tenso, em vez de diminuir, aumentava com o passar das horas.
Caros e opulentos, os sales de Raqat ofereciam banho turco, massagens com leos e unguentos, capazes de afastar qualquer sinal de fadiga do corpo. E, para completar, confiara nas mos hbeis de especialistas para tratar dos cabelos com cremes e deix-los mais sedosos, realando as mechas douradas. As mos e as unhas foram igualmente cuidadas, tornando-as mais longas e graciosas do que nunca.
Tremendo ligeiramente, ela pegou o vestido de cima da cama e, com um cuidado extremo, colocou-o.
De seda oriental bege, era preso sob o busto, caindo em pregas suaves sobre os quadris. Assentava perfeitamente nos ombros, como se tivesse sido feito exclusivamente para ela. O decote redondo suavizava o colo, e as mangas franzidas apresentavam um debrum fino vermelho. Para se ver de costas, ela ajustou dois espelhos. Realmente, estava muito charmosa. Junto com o vestido, havia comprado uma echarpe de seda, pensando nos costumes do pas, onde o corpo da mulher era considerado indecente.
Fazendo um teste, jogou o tecido sobre os ombros e, no estilo rabe, cobriu a face com uma das pontas, deixando apenas os olhos verdes de fora, os quais se transformaram em duas esmeraldas de brilho intenso. Nathan a aprovaria, com certeza.
O som de uma chave na fechadura a fez estremecer de novo. Rapidamente, tirou a echarpe e correu para o hall.
Com uma das mos escondida atrs das costas, Nathan entrou e se aproximou, sorrindo. De repente, parou e examinou cada detalhe de sua aparncia, enquanto ela fazia o mesmo com ele.
Nathan parecia um perfeito modelo. Magnfico! Por coincidncia, o terno marrom-claro, impecvel, combinava com a cor de seu vestido. Usava camisa branca de seda e gravata de cashmere. Ah! E o perfume almiscarado era delicioso. Os cabelos foram aparados, no muito curtos, dando-lhe um ar sofisticado. Ele transcendia  imaginao de qualquer mulher.
Sorrindo, Nat continuava imvel, fitando-a. Estaria zombando dela? No. O sorriso ntimo e o olhar intenso provocaram um disparo em seu corao.
Mas por que ele apenas sorria, em vez de tom-la nos braos? Ela estava morrendo de saudade!
De repente, Gergia percebeu que ele falava:
	Voc est esplendorosa!
	E voc...
Sem jeito, ela interrompeu a frase no meio. No ficaria bem dizer o mesmo para ele. E, afinal, apenas esperava ser carregada para o quarto e que ele desistisse do passeio programado.
Mas, em vez disso, Nathan tirou a mo das costas e ofereceu-lhe um buque de rosas, cujas cores variavam do marfim ao mbar, envoltas em brotos de samambaia.
	Para uma noiva linda...  ele sussurrou.
Com lgrimas nos olhos, ela tocou um dos botes de rosa.
	Oh, Nat! Voc est me mimando.
	E pretendo mim-la muito mais. Quero que se case comigo, Gergia.  Com um gesto, ele a impediu de responder.  Oua, ainda no disse tudo. Quero que se case comigo agora... esta noite.
	Nathan!
A felicidade de Gergia sobrepujou o choque causado pelas ltimas palavras dele. E a certeza de ser amada triunfou sobre a dvida que nutria, escondida em seu corao... Ela exultava de contentamento. Sua satisfao era intensa e pura.
	Tenho algumas consideraes a fazer, mas, um dia, com calma, explicarei melhor.
Gergia no lhe deu ateno. Estava concentrada no buque.
	Agora, podemos ir?  Nathan questionou.
	Um momento.
	Sim?
Emocionada, ela continuou parada por alguns segundos, com o buque nas mos. Depois, ergueu o rosto, e seus olhos brilhavam, cheios de promessas que a timidez a impedia de revelar.
	Vou pegar minha echarpe  disse finalmente.
	Espere.
	Sim, amo?
	Gostei de seu vestido.  Rindo, Nathan alisou suas costas com sensualidade.  Mas acho que prefiro... Oh, desculpe-me, no posso deix-la sem graa, expondo minha preferncia... Afinal, voc  uma noiva.
Gergia correspondeu ao sorriso e saiu em direo ao quarto, eufrica. Apanhou rapidamente a echarpe e a jogou sobre os ombros. Depois, segurando o buque na frente, voltou ao hall.
	Ficou melhor assim?
	Voc sempre est bem.  Ele a abraou com carinho.  Pensei que soubesse disso. Vamos.
Um carro os esperava para lev-los ao heliporto, onde o aparelho do sheik, com o braso na lateral, aguardava-os.
Calada, Gergia olhava para baixo, sem distinguir a realidade do sonho. Sobrevoavam o deserto mgico. A lua brilhava intensamente, e havia a mesma extravagncia de estrelas piscando como se fossem minsculos faris.
Aterrissaram perto do osis e da tenda, cuja aparncia era totalmente diferente da do dia da festa. Fora o sheik e a irm, no havia outros convidados. Os tapetes de cores vivas tinham sido trocados por tapetes de cores suaves, ricamente bordados com motivos de pssaros exticos e flores.
Freddy os recebeu com efuso, demonstrando claramente seu contentamento. Vestia um cafet, mas no usava turbante, o que lhe dava uma aparncia mais jovem. Gergia e Nathan o cumprimentaram, juntando as mos no tradicional gesto de respeito.
Mina acompanhou Gergia a um pequeno compartimento da tenda, onde a ajudou a enrolar a echarpe na cabea de um jeito especial.
Quando retornaram para junto dos homens, Gergia estranhou ao ver Nathan de cafet tambm. Depois, pensando melhor, achou natural que ele se vestisse daquela forma. Afinal, estavam no deserto, e o sheik e ele eram como dois irmos. Alm do mais, a roupa dava-lhe um ar romntico dentro da magnificncia daquele lugar.
Todos se posicionaram sobre um tapete especial, e, em p, de frente para eles, Freddy iniciou a cerimnia em rabe. Subitamente nervosa, Gergia procurou a mo forte de Nathan.
No tinha ideia do que estava sendo dito, at que o sheik encerrou a cerimnia em ingls.
	E, agora, pela virtude de meu poder e pelas leis de Raqat, eu os declaro marido e mulher.  Freddy beijou a noiva e abraou Nathan com fora.  Desejo-lhes felicidades e que tenham muitos e muitos filhos.
Mina tambm os beijou, desejando-lhes felicidades.
	Bem... Mina e eu precisamos partir agora, Nathan.  O sheik sorriu com malcia.  Tenho certeza de que desculpar nossa pressa em sair. Mas vejo- amanh, isto , se voc no estiver muito ocupado!
Nathan e Gergia assistiram juntos  decolagem do helicptero. Quando o silncio voltou a dominar o ambiente, ela olhou ao redor, apreensiva. Em seu ntimo, ainda temia acordar e descobrir que o casamento no passava de um sonho.
Como se adivinhasse seu pensamento, Nathan a envolveu pela cintura, devolvendo-lhe a confiana e o esprito de realidade. Ento, caminharam at o lago de guas cristalinas, e, diante do cenrio maravilhoso, ele a beijou com ternura.
	Mal posso acreditar que isto esteja acontecendo, Gergia.
	No est, Nat. Mas no importa.
	Vamos para a tenda, querida.  Beijou-a de novo com ardor.  Os empregados nos aguardam com uma ceia especial. Pena que no sinto fome.
	Pois eu estou morrendo de fome!  Ela o contradisse para provoc-lo.
	Voc  to romntica!  Nathan fez um gesto amplo com as mos, indicando a natureza.  Ofereo-lhe o deserto inteiro, as estrelas e a lua, e tudo o que me diz  que est morrendo de fome?
Com um ar de riso, Gergia tornou a reparar na vastido do deserto, no cu cheio de estrelas, no luar iluminando as fantsticas dunas de areia... Obras da natureza que pareciam ilustrar a insignificncia do homem.
	Desculpe-me, Nat. Estou muito impressionada e sou infinitamente grata a voc. No h nada mais belo do que tudo isto que est me oferecendo. Alis, a paisagem  a prova viva de seu poder.
	Sua ltima observao me comoveu, querida. Obrigado. Mas, apesar de tudo, sei que ainda continua morrendo
de fome, e eu lhe fiz vrias promessas.
	Ah, sim! Precisa me contar o que o sheik falou. Minha ignorncia inglesa me deixou em desvantagem em relao a sua sapincia arbica.
	Bem, Freddy me obrigou a colocar sua felicidade em primeiro lugar, isto , no topo da lista das promessas.
	Que timo!
	Voc, meus camelos e meus cachorros esto no mesmo nvel.
	 verdade?!
	Claro!
Diante da expresso chocada de Gergia, ele riu, divertido, e ela fez o mesmo.
Ambos ainda riam quando retornaram  tenda. Um empregado apareceu para recolher o cafet de Nathan e a echarpe de Gergia. Muito srio e carregando as roupas, o rapaz os conduziu a uma pequena alcova, atrs da sala principal, onde havia uma mesa posta para dois.
Embora pequena, a sala inspirava opulncia. Tapetes orientais forravam as paredes, e a luz trmula das velas dispostas em candelabros iluminava um aparador com bules, bandejas e punhais de lato polido. Sobre divs, esparramavam-se almofadas coloridas, bordadas com fios de seda. De novo, Gergia se sentiu parte da histria de As Mil e Uma Noites.
O empregado colocou no centro da mesa travessas de frutas e de fils de frango, regados com um molho de laranja e aafro.
	Que delcia!  Gergia exclamou, aps provar a comida.
	Bem, pedi a Freddy para providenciar algo leve e suave para...  Nat fez uma pausa, dando nfase ao resto da frase.  ...Evitar que voc tivesse um daqueles ataques de mal-estar. Voc sabe...
Ela demorou um pouco para lembrar-se de que passara mal nos primeiros dias em Raqat e, em seguida, teve vontade de rir, mas se controlou.
	Que romntico voc ter me lembrado desse episdio!
	No me provoque. Entenda... no ficaria bem para uma mulher jovem -e recm-casada sentir-se mal na noite de npcias.-
	Pois fique sabendo que no tenho inteno de me conformar com pratos triviais ou qualquer banalidade.
	J passou por sua cabea que quando Saad e o cozinheiro forem embora de moto, voc e eu ficaremos sozinhos,
sem nenhum ser humano por perto? Por quilmetros de distncia? Acho melhor comear a pensar com seriedade em agradar a seu marido, como prometeu diante do sheik.
	Ora, fui enganada! Eu no sabia o que estava acontecendo. Na verdade, no me lembro de ter sido questionada
ou de ter feito qualquer promessa.
	Hum... Vou lhe explicar, ento, como as coisas so por aqui: a questo foi colocada, e seu silncio foi tomado como "sim" pelo sheik. Freddy at se congratulou por ter encontrado uma noiva conformada e submissa para mim.
	Ora... eu no sabia que ele tinha me encontrado!
	No?!
	No, e, para ser sincera, penso justamente o contrrio.
O sheik encontrou voc para mim.
	Que seja!  Nathan segurou sua mo sobre a mesa.  O destino nos uniu, e lhe serei eternamente grato. 
Adotando uma postura sria, ele levantou o copo de vinho para brindar. 
	A ns, Gergia! E a este nosso momento.
	A voc, Nathan.  Ela encostou o copo no dele.  A voc, por me fazer to feliz!
	Isto, querida,  apenas o incio.
Inclinando-se sobre a mesa, Nathan a beijou.

CAPITULO VIII

Nas semanas seguintes ao casamento, Gergia sentiu-se nas nuvens. Levava uma vida repleta de alegrias e prazeres. Parecia um sonho, do qual despertava apenas vez ou outra para surpreender-se desempenhando as tarefas do dia-a-dia com entusiasmo. Jamais havia pensado em "criar juzo", como diziam os pais ao ver os filhos se casarem. Na verdade, acontecia justamente o contrrio com ela. Sua vida passara a ser agitada, e no pacata como a de uma tpica dona de casa.
Seu casamento se situava num plano diferente do que imaginara. Vivia num mundo extico, excitante e glamou-roso. E, claro, no existia nenhum outro homem igual a Nathan Trehearn na face da Terra!
O mais importante era que ele parecia se sentir da mesma forma. Lamentava os momentos que passavam separados, procurando sempre a levar junto com ele, quando o trabalho o permitia. E, cumprindo a antiga promessa, levou-a outra vez para mergulhar num fim de semana de cu azul.
Visitaram cavernas muito profundas, incrustadas em rochedos submersos, habitat de estranhas criaturas marinhas.
Gergia se mantivera calma durante os longos perodos de mergulho, consciente de que Nathan, e apenas ele, podia inspirar aquela segurana.
Quando retornaram ao barco, ele lhe dera um beijo e a congratulara pela tranquilidade.
 Voc ainda vai se tornar uma grande mergulhadora.
 Sabe, s vezes, pergunto-me por que se casou comigo?
	Hum... Eu precisava desesperadamente de algum que soubesse tomar notas entre...
	Oh, que pena! Com certeza, vai se decepcionar, pois nunca fui boa taqugrafa.
	No me deixou terminar, querida.  Ele erguera seu queixo, fitando-a intensamente.  Tomar notas entre outras qualidades, eu ia dizer.
No mesmo instante, ela enrubescera, sentindo o sangue correr mais rpido nas veias e uma vontade louca de provoc-lo.
	Interessante! Outras qualidades... Posso saber quais so elas, exatamente?
Nat sorrira com malcia, observando seu corpo esbelto enquanto estendia a mo para soltar o lao que prendia a parte de cima do biquini de Gergia.
	Venha c. Quero voc perto de mim para poder explicar direitinho e com calma. 
	Oh! Nathan, no...  Ela lhe segurou a mo.  Algum pode...
	Fique tranquila, querida. Somos os nicos seres humanos em quilmetros de distncia. Disse-lhe a mesma coisa
quando estvamos no deserto, lembra-se?
	Sim, mas...
	Otimo.  Ignorando seus protestos, Nat a puxara pela cintura e, prendendo-a junto a seu corpo molhado, beijara sua boca, a nuca e os seios.  Eu estava certo, e passamos trs dias maravilhosos e relaxantes.
Ela suspirara profundamente, percebendo o desejo latente de Nathan.
	Maravilhosos e exaustivos exprimem melhor aqueles dias, no acha?
	Esse seu suspiro  de exausto, querida? Venha, vamos descansar na cabina, onde est fresco e podemos discutir por que me casei com voc.
Numa outra ocasio, ambos foram convidados para participar de um baile, no clube. No incio, Gergia se negara a ir, relutante em voltar ao maldito clube. Aps muitas discusses, por fim, concordara em prestigiar os organizadores.
Imaginando os mexericos, arrumara-se com esmero, escolhendo para a ocasio uma saia comprida, estampada com flores suaves e uma blusa de seda branca. A gola alta salientava o rosto, realando a face radiante de felicidade.
Como previra, vrios homens solteiros vieram tir-la para danar, disputando sua ateno.
	No deve aceitar mais convites para danar  Nat cochichara em seu ouvido, enquanto danavam uma balada antiga.
	Por qu?  ela perguntara, num tom de voz inocente, acariciando-lhe a nuca.  Estou apenas me divertindo.
	Porque fico louco de cime, se quer saber.
	Hum... E como pensa que me sinto quando dana de rosto colado com Melaine Jacobs?
	Rosto colado?!  Fingindo indignao, ele tossira, afastando-se para encar-la.  Voc est exagerando e, alm disso, j lhe expliquei que Melaine  uma amiga da famlia.
	Talvez essa seja a principal razo para eu sentir cime 	ela falara, sria, para provoc-lo.  Bem, eu o probo de danar com Melaine outra vez. E... voc j lhe contou a nosso respeito?
	No, claro. No combinamos manter segredo at falarmos com seu pai, na Inglaterra?
	Ora, aquilo foi s uma ideia! E se ela  to ntima assim de sua famlia...
	Eu no disse ntima, Gergia.  Nat meneara a cabea, num gesto de censura.  Bem, Melaine at sugeriu... Fiz o melhor que pude para despist-la, e... Ora, por que est rindo?
	Ele rira tambm.  Voc adora me provocar, no?
Gergia fitava os olhos cinzentos, com ar inocente.
	E voc odeia provocaes, no?
	Esta  s uma das razes por que sou louco por voc. 
Entretanto, os dias de Gergia conheceram a rotina quando Nathan foi obrigado a viajar, para participar de uma srie de conferncias entre os pases com interesses dire-tamente ligados ao mar Vermelho. A viagem inclua Cairo, Amman e Riyadh.
A nica maneira que ela encontrou para amenizar a dor provocada pela ausncia de Nathan foi ocupar-se o tempo todo. Voltou a dedicar-se aos desenhos, pedindo a Ismail para lev-la a lugares remotos, onde podia observar tudo sem ser notada e sem ofender o povo local.
De vez em quando, admirava os prprios desenhos, que pareciam um verdadeiro caleidoscpio de cores.
O trabalho rendia bastante, preenchendo em parte os dias longos de solido.
 noite, porm, virava-se, desesperada e agoniada, na cama,  procura da segurana do peito viril, ciente do preo alto que pagava por amar demais.
Em seu mundo cor-de-rosa, no havia espao para desconfianas e tampouco para maus pressentimentos. Jamais passara por sua cabea que seu casamento estivesse prestes a acabar e de forma precipitada e traumatizante, como tudo acontecera.
Tudo se iniciou num dia normal, como qualquer outro, exceto pelo fato de que Nathan chegaria de viagem, e Gergia estava eufrica. J havia ido ao cabeleireiro e tambm preparara um prato especial, pois Ismail e Enna haviam tirado folga. S voltariam no final da tarde, do dia seguinte.
Sozinha no apartamento, Gergia organizava seus desenhos na pasta. Separara dois esboos de Enna, com a inteno de dar-lhe assim que a visse novamente, e os demais, havia guardado, pois ainda cultivava o sonho de algum dia retomar a carreira de estilista e pretendia utiliz-los como fonte de inspirao.
De repente, a campainha soou. Daquela vez, ela no pensou na possibilidade de ser Nat. Afinal, na noite anterior, ele telefonara, avisando-a de seu horrio de chegada, e ainda era muito cedo. Alm disso, possua a prpria chave.
Colocando os desenhos de lado, ela se levantou, com calma. Porm, quando abriu a porta, quase caiu de susto, ao ser praticamente empurrada de lado por uma mulher loira, de culos escuros, seguida pelo porteiro. Com um ar amedrontado, ele carregava um nmero absurdo de malas.
Como se no tivesse notado a presena de Gergia, a mulher dava ordens ao pobre homem, com impacincia.
	Ponha tudo naquele canto da sala.
	Desculpe-me...  Gergia tentou falar, quase em pnico. No fazia ideia de como lidar com aquela intruso sbita. A senhora deve ter se confundido, no? Este apartamento pertence a...
	A est bom, obrigada  a estranha continuou, com seu sotaque sulista, ignorando-a.
S depois de ter dispensado o porteiro, com uma gorjeta, virou-se, examinando Gergia de alto a baixo, com frieza.  Obrigada a voc tambm, querida. Mas sei perfeitamente quem  o proprietrio e gostaria de saber quem  voc e o que faz aqui em nosso apartamento?
Sem perceber, Gergia examinou-a tambm. Devia ter mais ou menos trinta anos e vestia-se sem pretenso, embora as roupas fossem de griffes caras. A camisa leve, azul-celeste, tinha o mesmo tom dos olhos.
	Nosso?!  Gergia finalmente se conscientizou das palavras ditas.  Quem pensa que  o dono...
	Nat no est aqui, querida?
	N... no. Mas quem  voc?
	Marylou.  Ela deu um sorrisinho irnico.  No  estranho como os homens se esquecem de mencionar alguns assuntos? Nathan no lhe disse que tinha esposa, doura?
No, no era nada estranho, Gergia pensou. Ningum melhor do que ela sabia que os homens se esqueciam de mencionar esse ponto importante s vezes. Mas at Nathan?
Subitamente, sentiu uma dor profunda no peito, seus olhos se encheram de lgrimas e o crebro parecia um novelo de l emaranhado, negando-se a prestar ateno no que a mulher falava.
	Philippa?!  Gergia indagou, ao ouvir aquele nome estranho.  Quem ...
	Sim, Philippa, minha filha. Coitadinha, ela sempre pergunta quando o pai vai voltar para casa. As crianas sentem tanta falta dos pais, no ? Este tipo de considerao nunca passa pela cabea de...  Ela fitou Gergia com superioridade, deixando claro que a culpava pela tristeza da filha.  ...Gente de seu tipo, mas... onde est Ismail? Preciso de ajuda para carregar as malas para o quarto.
Aturdida e com as pernas bambas, Gergia se deixou cair na cadeira mais prxima.
	Dei folga aos empregados. Voltaro amanh, no final da tarde.
Marylou no escondeu a irritao e, aps fazer meno de pegar as malas, voltou-se para Gergia.
	Ento  a srta...?
	Maitland. Gergia Maitland.
	Pode me dar uma ajuda, srta. Gergia Maitland?
Sem dizer nada, Gergia se levantou, pegou duas malas pequenas e seguiu-a pelo corredor. Para seu alvio, a americana escolheu o ltimo quarto, em vez do que ela e Nat partilhavam.
	Oh, estou morrendo de sede!  Marylou exclamou e, assim que colocou as malas no cho, virou-se na direo da cozinha.  Preciso de uma bebida bem gelada.
Gergia simplesmente a seguiu.
	Bem, srta, Maitland, por que no me conta o que faz aqui e... quando Nat voltar?
Gergia respirou fundo e, num esforo sobre-humano, procurou agir com frieza.
	No sei ao certo. Acho que Nathan est participando de reunies importantes... Para ser sincera, seu marido no me conta tudo e...  De repente, a voz falhou, e seus olhos se encheram d'gua. Afinal, estava sendo sincera, e sua falta de conhecimento a respeito da vida de Nathan era uma triste realidade. No entanto, Marylou no devia perceber quanto estava abalada.  No fao a mnima ideia de quando ele vai voltar.
	Oh, eu j imaginava! Isso no  novidade alguma, pois Nat sempre fez segredo de suas idas e vindS. E  justamente por este motivo que estou curiosa para saber o que faz aqui, srta. Maitland. Afinal, uma qualidade ele costumava preservar... a discrio.
Sem palavras, Gergia apenas a fitou. Sentia-se miservel e sabia que no adiantava querer esconder seu estado de esprito. Sua dor devia ser bvia, pois acabava de saber que no passava de mais uma das mulheres de Nathan. Ele devia ser um mulherengo incorrigvel, e Marylou apenas aceitava o fato, como muitas esposas tradas o faziam.
	Bem, com licena, preciso dar alguns telefonemas  Marylou a avisou de maneira afetada.  Tenho muitos amigos em Raqat.
Em seguida, Gergia a ouviu discando do aparelho do hall. Procurando no escutar a conversa, caminhou, apressada, para seu quarto. Mesmo assim, ainda pde ouvir algumas frases soltas.
	Ol, Melaine. Oh, o vo foi excelente! No, no... Philippa ficou com os avs, mas prometi a ela...
Gergia gelou. Melaine! S podia ser uma pessoa, claro. Melaine Jacobs, a amiga da famlia.
Com a mente trabalhando em crculos, comeou a juntar as peas do quebra-cabea. Nathan apenas havia se esquecido de ser objetivo e mencionar a "amiga de minha esposa".
	E ento?  Subitamente, Marylou apareceu na porta do quarto.  No vai me explicar por que est aqui, no apartamento de Nat? Como eu disse, o cenrio no  comum.
No seria mesmo comum? Gergia pensou, curiosa, mas em hiptese alguma se rebaixaria a ponto de perguntar.
De queixo erguido, olhou diretamente nos olhos de sua atormentadora e explicou com poucas palavras a confuso com as datas da volta de Pete. Na verdade, tudo se iniciara naquele dia.
	Se quiser confirmar a histria, pergunte a Pete.
	Oh, claro  Marylou falou, com sarcasmo.  E, com certeza, Nathan estava por perto, com uma oferta irresistvel, certo?
Virando-se de costas, Gergia comeou a tirar as roupas do armrio.
	Perfeitamente. Alis, foi muita bondade da parte dele.
	Ah, sim. Essa  uma das qualidades de Nathan, a bondade extrema, principalmente com mulheres jovens.  Marylou acendeu um cigarro e soprou a fumaa para dentro do quarto.  E aposto como vai querer que eu tambm acredite que os dois pombinhos no dormem juntos.
Gergia jogou as roupas dentro da mala e, depois de fech-la, encarou Marylou por um momento.
	Acho melhor eu ir embora agora. Por favor, d-me licena...
	Bem, j que tomou essa deciso, fico contente com sua atitude ponderada. Odeio quando fazem cenas. Voc sabe, s vezes, elas...
Duas horas mais tarde, Gergia se viu sentada no saguo do aeroporto,  espera de seu vo, sem ter a mnima ideia de como havia chegado at l. No se lembrava de ter pego o txi nem do trajeto pelas ruas da cidade que tanto adorava.
Seu nico pensamento fora escapar, encontrar um esconderijo onde pudesse se abrigar, curar as feridas do corao e tentar recompor a vida, mesmo que as possibilidades fossem remotas.
E s havia um lugar onde poderia se sentir segura: em seu apartamento em Londres. L, poderia trancar a porta com ferrolhos, cerrar as persianas e chorar  vontade na solido. Poderia derramar um rio de lgrimas, at se sentir leve e livrar-se da tristeza e da agonia. Encerraria assim mais um captulo desastroso em sua vida.
Pelo menos num ponto a sorte parecia estar de seu lado. No momento em que abordara o balco de embarque, a operadora recebia um telefonema de algum cancelando a viagem para Heathrow, seu adorvel aeroporto na Inglaterra.
Uma pequena parte de seu problema fora resolvida naquele instante. Alm de no se preocupar com hotel para passar aquela noite, sentia-se aliviada por se ver livre das malas. Felizmente, logo estaria embarcando.
Com os problemas prticos resolvidos, todo o seu pensamento concentrava-se em bloquear qualquer lembrana dos ltimos acontecimentos. Seu grande desejo era jamais ter ouvido falar de Raqat e muito menos visitado aquela cidade ou o deserto.
A sua volta, o movimento de pessoas embarcando e desembarcando continuava. Os vestidos longos e bordados a faziam lembrar de... do filme Lawrence d'Arbia. Isso mesmo, do filme e ponto final. Para sempre!
Com o firme propsito de no pensar mais em sua angstia e espairecer, Gergia se levantou e caminhou at o outro extremo do saguo, com determinao. No entanto, ao passar por uma porta espelhada, quase morreu de susto, vendo a prpria imagem refletida. Ningum diria que Gergia Mai-tland era aquela moa alta, magra, de cabelos loiros escorridos, encobrindo a metade do rosto. Um rosto plido, e os olhos verdes, sempre to brilhantes, sem nenhuma vida.
Indignada, voltou a caminhar, parando em seguida, em pnico.
No centro da ala de desembarque, havia um grupo de homens: cinco ou seis rabes e dois europeus. Um deles, o mais alto do grupo, era o ltimo homem da face da Terra que ela gostaria de encontrar. Por uma frao de segundo, o contemplou, sem conseguir desviar a vista.
Nathan conversava, muito seguro de si. Ambas as mos se movimentavam para explicar algo interessante que todos prestavam a ateno e riam.
Por um lado, ela sentiu uma dor lancinante no peito e, por outro, um prazer perverso em admirar a figura dinmica daquele homem to  vontade no controle da situao e... to lindo! Oh, sim! Reconhecia finalmente a beleza nos traos que a impressionaram no incio pela fora e pela determinao que emanavam. Amargurada, admitia tambm que ele preenchia todos os requisitos que sonhara encontrar num homem.
Um soluo fechou sua garganta, ameaando sufoc-la. Naquele preciso momento, Nat ergueu a cabea e, sorrindo, distrado, olhou em sua direo.
Instintivamente, Gergia escondeu-se atrs de um pilar e, gelada de medo, rezou para no ter sido vista. Porm, seus olhos espreitaram o sorriso desaparecendo do rosto de Nathan, assim como o espanto da expresso.
Ele se desculpou com o grupo e comeou a andar a passos largos, cruzando o saguo quase vazio, enquanto ela se apressava em direo  sala de embarque. L, estaria a salvo, at seu vo ser anunciado. Porm, a distncia entre eles diminua rapidamente.
 Gergia!.
Ela fingiu no ouvir. Alguns passos a mais, e conseguiria escapar, isto , no fosse uma famlia inteira: pais, avs, filhos e netos com seus carrinhos de bagagem, impedindo sua fuga.
	Gergia!  J ao lado dela, Nathan a segurou pelo brao.
Ela o fitou. No olhar de Nathan, transpareciam sentimentos de surpresa, preocupao e ternura ao mesmo tempo. Todas as emoes num s olhar. Emoes que apenas serviam para confundi-la. Preferia mil vezes encarar uma expresso de raiva. Pelo menos, teria oportunidade de revidar.
	Nat...
Ela sorriu sem convico, percebendo que ele desconfiava de algo. Talvez tivesse visto o carto de embarque nas mos dela.
	O que aconteceu, Gergia? Recebeu alguma notcia ruim, querida?
	No, eu... No  nada disso, acalme-se.  Ela procurou sorrir, fingindo despreocupao.  Recebi um telefonema de Jordan, s isso. Lembra-se dele? Bem, Jordan me ligou hoje cedo, oferecendo meu trabalho de volta.  Fez uma pausa, dando de ombros.  Pois , achei melhor aceitar a oferta.
Seu jeito despreocupado s tinha um motivo: queria mago-lo assim como ele a magoara, sem sugerir qualquer indcio da profundidade de seu sofrimento.
Vendo-o passar a mo pelos cabelos, como algum se controlando para no perder a cabea, chegou  concluso de que havia conseguido engan-lo.
	No posso acreditar nisso  ele falou  meia voz.  E ns, Gergia?
	Foi um erro  ela respondeu de forma seca e fria.
No fundo, desejava t-lo acusado com todo seu dio. Sabia, no entanto, que apenas o orgulho a impedia de criar uma cena digna de uma epopeia. Se os dois se encontrassem sozinhos em algum outro lugar, talvez gritasse e lhe atirasse no rosto seu conhecimento da existncia da esposa e da filha, omitidas de propsito por ele.
O orgulho a ajudou tambm em sua deciso de manter a frieza. Como Gergia Maitland, uma mulher com certa experincia, pudera cometer o mesmo erro idiota outra vez? 
Como fora envolver-se com homens casados duas vezes consecutivas e em poucos meses?
Perdera toda sua auto-estima, e a nica maneira de recuper-la era tentando apagar tudo que se relacionava ao fato. Erradicar as razes de todas as lembranas!
Nathan continuava fitando-a. Parecia plido, ou seria o efeito das luzes frias do aeroporto?
	Um erro?  ele perguntou entre os dentes, apertando um pouco mais o brao dela.
	Sinto muito, Nat  Gergia se desculpou e arrependeu-se em seguida. Por que estava se desculpando? Por qu?
 Por favor, solte-me. Voc est machucando meu brao.
Sem uma palavra, ele a soltou. Os olhos cinzentos, sempre to luminosos, estavam frios e ausentes.
Naquele instante, ela se deu conta de que, apesar de tudo, gostaria de encostar a cabea no peito viril e pedir-lhe para negar, para desmentir a existncia da mulher e da filha. Queria ser confortada e que ele juntasse os pedaos de seu corao partido. Ser que sua determinao e suas foras estavam chegando ao fim? Precisava sair dali o mais rpido possvel.
	Estou esperando, Gergia.
	Mas eu j disse, foi simplesmente um erro.  Naquele momento, ela ouviu uma chamada nos alto-falantes.  Preciso ir. Esto anunciando meu vo. Eu...
	Para Bagd? No acredito que esteja indo para Bagd. De qualquer maneira, no vai a parte alguma sem antes me dar uma explicao. Apenas um erro no  o suficiente para mim.
	Oua, seus amigos esto procurando-no. Por que no vai se encontrar...
	Estou esperando, Gergia. Alis, estou tentando me controlar porque, se eu ficar nervoso, no hesitarei em arrast-la at o carro e mant-la em Raqat. E por quanto tempo eu quiser, entendeu?
	No acredito que faria isso. Voc...
	Est vendo meus amigos? O homem mais baixo  o Ministro da Defesa de Raqat. Sabia que tudo neste pas  de propriedade do sheik? Se eu inventar uma histria de que esto faltando um ou dois objetos... Bem, voc ser detida at o assunto ser esclarecido.
	Mas voc... no seria capaz de fazer isso comigo.
	E por que no? Est querendo se vingar de mim, certo?
	No, eu...  Gergia quase deixou escapar as acusaes, mas se controlou a tempo.  J disse o motivo, Nat. No quero mago-lo mais.
Infelizmente, falava a verdade. Mesmo aps o comportamento abominvel de Nathan, no havia satisfao em sua tentativa de feri-lo ou mago-lo. Se inclusse o nome de Jordan, sugerindo que haviam reatado o antigo caso, isto , dando a entender que havia um motivo pessoal para a vontade sbita de retornar  Inglaterra, conseguiria convenc-lo com mais facilidade.
	Vingana no combina com voc, Gergia.
	Juro, foi um erro. Eu me enganei quando me demiti do emprego, e... Sinto muito.
Tola, ela se recriminou. Alm de no mencionar Jordan ainda havia pedido desculpas! Com certeza, a ltima coisa que Nat queria ouvir era um pedido de desculpas. Mas, talvez, aquele fosse o modo mais digno de terminar um relacionamento.
	Entendo...  Ele pareceu resignado.  Se  assim... Eu tambm sinto muito, Gergia.
De cabea baixa, ela no se atrevia a encar-lo. Nathan realmente parecia sentido e desolado. E quem era ela para julg-lo? Ele devia ter motivos para agir daquela forma. Afinal, jamais imaginaria, nem por um minuto, que Marylou fosse o tipo de mulher com quem...
	Nat, eu...
Insistentemente, os alto-falantes chamavam uma pessoa. Gergia ergueu a cabea, e eles se fitaram por um momento.
	Esto chamando-o, Nat. Parece urgente.
	Como? Oh... sim!
Uma moa com uniforme da Aerolneas de Raqat, segurando uma pasta, aproximou-se, apressada. Nathan se inclinou para escutar melhor o recado.
No mesmo instante, Gergia ouviu a chamada para seu vo e virou-se. Era a oportunidade de sair dali, sem olhar para trs.
Horas depois, quando o avio j sobrevoava o Mediterrneo, Gergia caiu em si. Estivera muito perto de perdo-lo, correndo o risco de ser persuadida a desistir da viagem ou de dizer adeus para sempre.
Esse pensamento a fez estremecer. Esgotada, apoiou a cabea no encosto do assento e, s ento, derramou as lgrimas que estavam presas em seu corao.

CAPITULO IX

Quatro semanas mais tarde, Gergia percorria as ruas de Londres, sentada ao lado do motorista de um furgo alugado. As frias e os ltimos acontecimentos em Raqat eram apenas uma vaga lembrana.
Aps uma curva fechada, ela olhou para trs, verificando se as roupas do desfile no haviam amassado. No ganharia nada para mostrar sua minicoleo no hotel, a no ser publicidade por se tratar de um desfile importante.
	 o principal evento beneficente da sra. Connie Bering   o pai argumentara alguns dias aps a chegada de Gergia
 Inglaterra.
Ambos conversavam na sala da casa do pai, em Greenwich. William Maitland preparara dois clices de licor de cereja e entregara um  filha tristonha e calada.
	Obrigada, pai.
	Quando a sra. Bering me telefonou outro dia, pedindo ajuda, expliquei-lhe que voc estava fora... no exterior ele prosseguira, observando a filha, cujo olhar perdido fixava o jardim.  Mas... voc voltou to inesperadamente. Bem, a ideia pareceu-me tima. Como sabe, David e eu servimos o Exrcito juntos, em Aden. E, desde que subiu de posto, sua mulher se transformou. Lembra-se dela? Era to irresponsvel e frvola, agora  a alma caridosa em pessoa... Gergia, filha, que tal o licor?
	Como? Oh, sim, voc falava da sra. Bering!
	Bem,  s isso. Pode ser muito bom para voc puder ajud-la nesse show de moda. Ainda no encontrou nenhuma atividade?
Ela erguera o olhar para a fisionomia preocupada do pai.
	No. Mas no se preocupe, amanh comearei a procurar.
	E por que no participa desse trabalho primeiro? A direo da entidade est oferecendo uma verba para a compra dos tecidos e j contrataram algumas costureiras. Poder ser divertido, e, se entendi bem, a televiso dar uma cobertura especial. Vrias griffes famosas vo mandar representantes. Pense apenas na publicidade, pois poder ser mais valiosa do que o dinheiro, filha.
Por fim, Gergia aceitara a proposta e, por esse motivo, trabalhara alucinadamente nas semanas seguintes. Alis, nunca imaginara ser capaz de tanta persistncia diante do trabalho rduo.
As manhs e as tardes passaram a ser to exaustivas que, quando a noite chegava, ela mal encostava a cabea no travesseiro e seus olhos se fechavam de imediato, sem pensar em mais nada.
Porm, ao acordar, no dia seguinte, invariavelmente ta-teava a seu lado,  procura do homem que amava. Ou pronunciava-lhe o nome. Felizmente, seu delrio, como costumava pensar, durava pouco. Graas ao trabalho e a um firme propsito, as lembranas e os sonhos apagavam-se gradativamente, apesar de no ser uma tarefa fcil.
Ainda cultivava um forte sentimento de mgoa, por ter sido trada, e amargura, por Nathan no ter feito nenhuma tentativa de contato. Desejava uma explicao ou uma desculpa, mesmo que os argumentos dele fossem nulos.
No fundo, talvez no fizesse questo de v-lo outra vez. Alis, era a ltima coisa que desejava... Mas, se ele realmente quisesse procur-la, teria pedido seu endereo a Pete Taylor.
Nathan deveria estar extremamente envergonhado. Ela at podia imaginar as histrias e os mexericos que circulavam em Raqat, depois de sua volta  Inglaterra.
 Chegamos  o motorista informou, fazendo-a voltar  realidade.
Depois de estacionar o veculo, ele a ajudou a carregar as roupas para o hotel. Entraram por uma porta lateral, indo direto para uma sala ampla, onde reinava o caos. Todas as modistas e as costureiras faziam os ltimos acertos nas modelos.
Como chegara em cima da hora, Gergia foi logo chamada a apresentar sua coleo, mal tendo tempo de preparar-se como queria.
Pelo menos, sentia-se confiante com a prpria aparncia. Vestia uma cala leve e a tnica que usara na primeira vez em que... Bem, o importante era que se sentia confiante tambm com os vestidos que apresentaria.
Ao desenhar os modelos, enfatizara o lado alegre da moda, usando como inspirao vrios esboos de sua viagem a... ao Oriente Mdio. As roupas, na maioria, eram exticas e impraticveis para o dia-a-dia de muitas mulheres. Mas fizera isso de propsito, pois sabia que aquela audincia, acostumada ao luxo, no se interessaria pela roupa prtica.
Gergia se considerou com sorte quando viu as garotas escolhidas para apresentar seus vestidos. Alm de profissionais, eram as mais atraentes. At ela prendeu a respirao, duvidando da prpria criatividade, quando a primeira modelo desceu os degraus acarpetados em direo  passarela.
Alta e esbelta, a modelo era o prottipo do gosto masculino... e feminino tambm. Havia uma harmonia perfeita entre a pele da modelo, morena, cor de jambo, e a suavidade do vestido longo, feito de chiffon, na cor marfim.
De repente, Gergia percebeu que a audincia aguardava o comentrio da modista. Em pnico, ela correu os olhos pela plateia lotada,  procura do apoio moral do pai. Porm, os holofotes colocados em sentido contrrio a impediam de localiz-lo em meio a centenas de cabeas viradas em sua direo.
Limpando a garganta, comeou:
 Apresento-lhes Lara. Esta modelo maravilhosa veste um traje inspirado no deserto.
Com os ps descalos, Lara desfilou pela passarela e parou rapidamente diante de um ventilador estrategicamente colocado. O tecido leve colou-se contra o corpo, proporcionando uma viso momentnea das pernas bem-feitas. E, antes de deixar o palco, a modelo jogou um leno sobre os ombros num gesto dramtico e sensual, fazendo a plateia vibrar.
Em seguida, outra garota igualmente bela substituiu Lara na passarela.
Os aplausos entusiasmados inspiraram confiana em Gergia, que, sentindo-se  vontade, dispensou as fichas que havia preparado e passou a usar uma linguagem casual para explicar os modelos que criara.
Aproveitando um pequeno intervalo, ela tentou novamente localizar o pai na plateia. Por coincidncia, naquele exato instante, uma porta lateral se abriu, e um facho de luz penetrou no ambiente, iluminando uma figura alta, recostada contra a parede do fundo do salo.
Gergia sentiu uma dor aguda no peito, ao perceber um ar familiar,na pessoa. Porm, a porta se fechou antes que pudesse examin-la melhor. Com certeza, enganara-se. Quanta iluso! J havia perdido a conta do nmero de vezes que identificara Nathan nas ruas, entre os pedestres.
Novamente, Lara entrou na passarela, dando continuidade ao desfile. Por sorte, aquele seria o ltimo vestido de sua coleo.
 Com estilo nico e irrepreensvel, Lara veste Masque-rade  Gergia informou.
A moa se movia com graa ao ritmo da msica rabe. A cala de odalisca flutuava ao redor das pernas, enquanto minipingentes cintilavam na cintura. O tecido leve possua uma certa transparncia. O suficiente para preservar o decoro, embora a sensatez no fosse o conceito primordial da arte naquele desfile. A parte superior apenas cobria o busto. No umbigo descoberto, havia sido incrustado um rubi. Lara segurava uma mscara dourada, presa numa haste, com a qual encobria a face. Antes de sair, porm, abaixou-a, revelando os olhos bem maquilados, cujo brilho era intenso. Levando em considerao os aplausos entusiasmados, Gergia considerou a noite um grande sucesso. Sorridente, agradeceu ao pblico e deixou o palco, retornando  sala das modelos, onde pendurou as roupas espalhadas. O pai apareceu para elogi-la, e, depois de ouvi-lo, ela voltou ao salo, para os lugares reservados aos organizadores, a fim de assistir  apresentao dos outros estilistas.
Admirava uma manequim que exibia um modelo de tema escocs, quando foi surpreendida por um leve toque no ombro.
	Srta. Gergia Maitland?  um segurana perguntou.
	Sim.
	Mandaram entregar-lhe este envelope.
O envelope continha uma simples folha de papel com o logotipo do hotel, pedindo-lhe para subir  sute 309 assim que pudesse. Gergia estranhou o bilhete, comentando com uma das senhoras da comisso.	.    
	Que estranho... Acho que no vou.
	Lembre-se, vrias confeces enviaram representantes em busca de novos talentos!
	Ser?!
	O que tem a perder indo l, filha? S uma tola perderia essa chance. E, pelo que pude notar, seus desenhos foram muito apreciados. Precisa atender a esse chamado.
	 verdade, a senhora est certa, mas...
Afinal de contas, uma das razes pela qual aceitara participar do desfile sem ganhar nada era obter os contatos que impulsionariam sua carreira. Porm, sentia-se desmotivada naquele momento, sem nimo para tomar decises importantes de negcios, e tudo porque... Oh, aquela maldita viso! Por que no esquecia Nathan de uma vez por todas?
	Vai acabar se arrependendo, filha  a senhora a alertou.
	Tudo bem, irei.  Gergia forou um sorriso. Afinal, precisava lutar, se quisesse esquec-lo para sempre.  Se procurarem por mim, diga que j volto, por favor.
	V tranquila e boa sorte, filha.
Ao descer do elevador, a porta da sute 309 j se encontrava aberta. Gergia entrou e olhou ao redor,  procura de algum. Estranhou a falta de uma bandeja de caf ou aperitivos, como normalmente acontecia em reunies de negcios, mas... De repente, ela viu uma mesa posta com dois lugares, como se um casal fosse jantar.
Apavorada com a cena de intimidade e sentindo-se indiscreta, resolveu sair dali o mais rpido possvel.
	Gergia.
O som daquela voz conhecida a paralisou. As pernas comearam a tremer enquanto a indeciso a gelava. E, agora, o que faria? Voltava ou no para o quarto? Se, por um lado, resistir aquele chamado era difcil, ver-se face a face com ele seria duplamente penoso.
Finalmente, ela se virou. A viso de Nathan despertou uma dor aguda que parecia perfurar seu corao. Ele usava terno azul, camisa branca e... Como ele ousava colocar um boto de rosa na lapela? Queria provoc-la, com certeza.
Ainda tremendo, Gergia analisou o rosto moreno. Parecia mais magro, havia sinais de fadiga nos olhos e linhas marcantes ao redor da boca. No se lembrava da existncia daquelas linhas! Decerto, a esposa o fizera passar por um grande apuro, pressionando-o.
	Ol, Nathan.  Ela se esforou para parecer natural. 	No me lembro de t-lo visto no salo durante o desfile.
	Mas eu estava l, sim. Assisti ao desfile inteiro e gostei muito dos vestidos. Pelo visto, a estada em Raqat lhe fez bem.
	Ora, nem tanto! Porm, voc me enganou com o bilhete. Pensei que fosse da parte de alguma confeco.
	Sinto muito se a decepcionei. No quis assinar para no arriscar perd... Tive medo de perder a chance de conversarmos. Bem, quando seu pai disse...
	Meu pai?!  ela o interrompeu, subitamente furiosa. 	O que papai tem a ver com isso?
	No o culpe, Gergia. Pedi a ele para no lhe contar que eu estava aqui. Levei muito tempo para localiz-lo, e, quando consegui, ele me contou sobre ,o desfile beneficente. No mesmo instante, reservei este quarto de hotel.
	Entendo...  ela falou, com frieza. Sentia-se magoada com a interferncia do pai em sua vida.  Mas...
O surgimento de dois garons  porta da sute, empurrando um carrinho com vinho e vrias travessas de prata, interrompeu-a. Nat gesticulou para que eles entrassem. O que significava tudo aquilo? Ser que ele pretendia reconquist-la com aquele aparato todo? Apesar de faminta, no cederia  tentao.
	Espero que tudo isso a...  ela fez um gesto com a mo, indicando a mesa, aps a sada dos garons  ...no tenha nada a ver comigo. E, se tiver, perdeu tempo e dinheiro.
	No tome decises precipitadas, Gergia. Aceita pelo menos um drinque?
Ela olhou para Nat, que, de costas, preparava os drinques. E, sem querer, lembrou-se daquela mesma recomendao, daquele tom de voz suave e das consequncias...
	Gim-tnica.  Ele lhe entregou o copo, sorrindo.  Bem fraco... como voc gosta.
	Obrigada.
Contrariada, ela refletiu que, alm de merecer um drinque aps o dia estafante, faria um papel ridculo se sasse correndo, como se estivesse amedrontada.
	Sente-se. Fique  vontade, Gergia  ele falou, depois de alguns minutos em silncio.  Descobrir seu paradeiro foi muito trabalhoso, sabia?
	No me diga! Verdade?!
Sem perceber, ela havia tomado mais da metade da bebida, e o lcool comeava a fazer efeito em seu estmago vazio, alm de aguar os sentidos.
	Bem, eu sabia apenas que seu pai morava em Londres. E, se no soubesse que ele seguia a carreira militar, minha procura teria levado muito mais tempo.
Ser que Nathan a tomava por idiota?
	Se estivesse to ansioso como diz, teria perguntado a Pete Taylor o endereo. Ele o informaria, tenho certeza.
	Ah, sim, Pete!  Nat exclamou.  Pensei nele, acredite. Mas Pete estava em Raqat, e eu...
	Ficou envergonhado, no foi?
	Escute, Gergia, vamos parar com esse tipo de agresso?  Ele levantou ambas as mos num gesto de desespero.
 No fica bem em voc, e sabe disso.
Ao invs de se zangar, Gergia se alegrou por t-lo deixado irritado. Finalmente, tirara-o do srio.
	Continue. Sou toda ouvidos
	Nao percorri milhares de quilmetros para trocar crticas mordazes e de sentido duplo. No fao a menor ideia do motivo que a leva a crer que fiquei envergonhado. E, se bem me lembro, a verdade  que quem falou em voltar  Inglaterra para retomar o antigo emprego foi voc. E acontece tambm que seu pai me disse...
	Papai no tem o direito de dizer nada.  Ela colocou o copo na mesa lateral com fora.  Considero uma afronta vocs discutirem a meu respeito em minhas costas!
	Pois no deveria, e voc sabe o motivo  ele replicou, com calma.
Algo na voz de Nat quase despedaou o corao de Gergia.
	O que... quer dizer com isso?
	Simplesmente que no deveria se ressentir. Ele a ama, e, quanto a mim... Nathan passou a mo pelos cabelos, num gesto de desespero.  Pode me ouvir por alguns instantes, Gergia? Fiquei desesperado, sem saber o que havia acontecido.
Ela sabia que o pai a amava, mas Nathan? Uma vez acreditara ser amada por ele...
	Ora, essa  boa! Quer que eu acredite? Estava to desesperado que demorou semanas e semanas...
Ela parou de falar, sentindo um n na garganta. E tambm fingiu ajeitar os cabelos para no o deixar ver seus olhos rasos d'gua.
	Acha que demorei porque eu quis?
	O que esperava que eu pensasse, ento?
	Oh, Gergia!  Nat a tocou de leve nos ombros.  Gergia! Pode imaginar o inferno em que vivi durante todo esse ms?
Em princpio, ela no conseguiu evitar uma certa euforia. Sentiu-se nas nuvens com aquela confisso, mas, em seguida, lembrou-se de que no podia se deixar influenciar.
	E o que importa isso agora, Nat?
	Para mim, muito. Mais do que qualquer coisa no mundo. Mais do que o deserto. Lembra-se daquele dia no aeroporto, quando voc estava embarcando e apareceu uma moa com um recado para mim? Ela trazia uma mensagem urgente da parte de minha me. Infelizmente, meu pai havia sofrido um acidente de automvel e estava muito mal. Somente esse foi o motivo que me impediu de tomar o avio seguinte para Heathrow, atrs de voc, juro.
Apesar de adorar saber que existia um motivo real para o silncio de Nathan, Gergia sentia-se mesquinha, encontrando consolo naquela justificativa, pois Nat queria muito bem ao pai. De qualquer forma, suavizava um pouco sua amargura.
	Sinto muito, eu no sabia. Como est seu pai?
	Ficou em coma durante vrios dias e, quando se recuperou, assustou-nos um pouco. Estava com fixao no trabalho e nos contratos que preparava antes do acidente. Ainda est com o brao engessado, porm os mdicos afirmaram que se recuperar totalmente.
	Que bom!
	Nesse meio tempo, fui obrigado a me dedicar de corpo e alma ao escritrio de Nova York  Nat continuou.  Apenas isso me impediu de... No se esquea, quem decidiu que nosso relacionamento havia sido um erro foi voc, para voltar para os braos daquele homem... Pode imaginar como me senti? Naquele dia, eu tinha encerrado as reunies no Cairo mais cedo para voltar para casa. Para casa, no, para voc, mas acabei sendo passado para trs... Eu acreditava que havia um nico pensamento entre ns dois. Algo que duraria para o resto de nossas vidas. Pode me entender?
Gergia j no o ouvia mais. Precisava interromp-lo antes que perdesse o controle da situao. Antes que fosse persuadida a fazer o que sua conscincia sabia ser errado. Temia sofrer e, mais do que tudo, que acontecesse o inevitvel entre eles.
Durante a pouca convivncia de ambos, tornaram-se peritos em despertar o prazer recproco. Naquele exato momento, daria tudo no mundo para alisar o rosto recm-bar-beado de Nathan. E, se o fizesse, ele tomaria sua mo com gestos lentos e beijaria a palma com paixo, despertando-lhe uma sensao deliciosa e... perigosa.
Sim, perigosa porque jamais imaginara, durante todo aquele tempo, que ele a estivesse enganando. Pior ainda, enganando a esposa!
Gergia suspirou, recuando um passo. Precisava se afastar do perigo iminente.
	E sua esposa, Nathan?  A voz saiu calma, surpreendendo at a si prpria.  Onde entra sua esposa nessa sua equao de unidade de pensamento e devoo eterna?
	Mi... minha o qu?!
Conseguira choc-lo, Gergia pensou, satisfeita. A expresso terna mudara, os olhos se contraram e os lbios se crisparam. Tudo isso ocorreu numa frao de segundo.
	Sabe,  at engraado descobrir a quantidade de homens que tm a mesma atitude em relao s esposas.
	Com quem esteve falando?  E, antes que ela pudesse responder, Nathan caiu numa sonora gargalhada.  Como se eu precisasse perguntar... com Melaine Jacobs, claro. Ela deve estar dando pulos de alegria.
	Engano seu, Nat. Nunca mais vi Melaine, a no ser em sua companhia.  Gergia fez uma pausa, antecipando o prazer de ver a expresso dele se transformar mais uma vez. Nat tinha de sofrer tanto quanto ela.  Sua esposa apareceu no apartamento. Alis, naquele mesmo dia em que nos encontramos no aeroporto, lembra-se? Ela se admirou em me ver na cobertura. Bem, tomei a atitude mais decente que me ocorreu. Sabe, estou surpresa que voc no saiba nada a respeito de nosso encontro.  Gergia corou, ao lembrar-se da humilhao.  Talvez... isso ocorra com tal frequncia que para ela no valha a pena mencionar o fato.
	Pois eu no soube de nada.
Gergia apenas deu de ombros, fingindo no se importar, mas no ntimo gostava de v-lo preocupado. No precisava ser uma pessoa de grande percepo para enxergar a raiva que o dominava.
	No voltei ao apartamento depois do chamado urgente de minha me. Uma hora depois que seu avio decolou, partipara Nova York. E, quando encontrei Marylou nos Estados Unidos, dez dias atrs, ela no mencionou que tinha estado em Raqat. E claro que no falaria...  Ele passou a mo pelos cabelos, num gesto amargurado.  Uma atitude tpica dela.
Gergia se desapontou, apesar de no esperar nada de bom do encontro, a no ser desabafar o sofrimento. No fundo, talvez tivesse cultivado a esperana de que uma fada com varinha de condo desfizesse o mal-entendido. Entretanto, devia ter imaginado que estava muito velha para acreditar em contos de fada.
Depois do desabafo, a amargura se evaporara. S lhe restava torcer para encontrar foras para resistir aos encantos quando Nathan tentasse reconquist-la.
	Voc me perdoa, Gergia?  Ele pegou uma mecha de cabelos dela e girou-a nos dedos.  Tratei-a mal e no a culpo se...
Ela perdoava, claro! Mas no aquele gesto ertico que enviava sinais de desejo por seu corpo. Temia que ele prosseguisse, como costumava fazer, puxando-a gentilmente de encontro ao peito e... depois, acariciasse suas costas, levando-a  loucura ao tocar-lhe os lbios.
	Deve pedir desculpas a sua esposa  ela falou, com raiva. No permitiria que a emoo a fizesse esquecer que ele era casado. A simples ideia de que Nathan tinha uma filha com outra mulher parecia uma faca perfurando seu corao.  E a sua filha tambm. E no a mim, uma tola que se deixou influenciar pelos mistrios do deserto.
Sem conseguir mais se controlar, Gergia rompeu em pranto. No mesmo instante, sentiu os braos de Nathan ao redor de seu corpo.
	No chore, minha querida. Est partindo meu corao.
	No me chame de querida  Gergia protestou, entre soluos.
Nat tirou um leno do bolso e estendeu a ela.
	Bem, agora farei uma coisa que deveria ter feito no incio de nosso relacionamento. Vou lhe contar tudo a respeito de Marylou e Philippa.
Quando o ouviu mencionar com tanta naturalidade os nomes das duas, Gergia sentiu seu ltimo fio de esperana desaparecer naquele instante.

CAPITULO X

Nathan caminhou at a mesa posta e virou-se para Gergia.
	Est com fome, querida?
Ser que ouvira bem?, ela pensou, quase explodindo de dio e ressentimento. Estava com fome, sim, mas no admitiria isso.
	Que espcie de pergunta  essa?  perguntou, de monstrando desdm.
	Apropriada  ele respondeu baixinho.
Havia um qu de respeito e submisso na voz dele, ou enganara-se? Ora, a virtude da humildade no combinava com a aura de autoconfiana do temperamento altivo de Nathan.
Desconfiada, ela ficou quieta, encarando-o.
	Bem...  Nathan continuou no mesmo tom de voz. Como no comi nada o dia inteiro, encomendei uma refeio deliciosa e um vinho tinto para acompanh-la.  Ele ergueu uma sobrancelha e deu um sorriso tmido e frustrado.
	Acho que no adianta continuar falando porque, pelo visto, voc no est com fome, no ?
Comovida, Gergia desviou a vista.
	Para dizer a verdade, estou com um pouquinho de fome, sim  confessou, sem graa.
	Nesse caso, venha sentar-se aqui.  Nathan puxou uma das cadeiras.
Ao v-la acomodada, ele suspirou enquanto tomava seu lugar. Depois de destampar as travessas de prata e colocar vinho nos copos, ele a fitou demoradamente. Os olhos cinzentos percorreram toda sua face, detendo-se nos lbios por alguns instantes.
	Vamos brindar, Gergia?  Nat ergueu o copo, encorajando-a a fazer o mesmo.
Distrada em examinar-lhe as feies, ela no respondeu. Como podia ter esquecido ou bloqueado da lembrana a infinidade de emoes que haviam passado juntos? Algumas vezes, quando estavam na cama, ele roava os longos clios aveludados em sua face, causando-lhe uma sensao estranha e, ao mesmo tempo, maravilhosa. Como pudera esquecer esses pequenos prazeres? pensou, estremecendo.
Um barulho no corredor do hotel despertou-a do devaneio. Impassvel e ainda segurando o copo, Nathan continuava fitando-a com um ligeiro sorriso nos lbios, como se lesse seus pensamentos.
Talvez imaginasse que ela sucumbiria aos encantos dele. Que conseguiria abrandar sua raiva com aqueles olhares e sorrisos. Pois estava muito enganado, Gergia pensou, adotando uma postura sria e rspida. Levando em considerao que ele admitira ter uma esposa, aquele sorriso apenas provava que possua experincia em situaes idnticas quela. Situaes de conquista, e a nica tola seria ela, se casse na armadilha.
Novamente, uma dor profunda apoderou-se de seu corao magoado. Para dominar a vontade de recomear a chorar, Gergia pegou o copo de vinho.
	A ns!  ele falou.
Em sinal de protesto, ela recolocou o copo sobre a mesa e pegou os talheres, concentrando sua ateno no medalho de cordeiro, acompanhado de cenouras midas e batatas com ervas.
Por ironia do destino, o prato era colorido como a vida e saboroso como... Preferia no terminar o pensamento.
	Hum... Est delicioso!  disse para irrit-lo.  Por que no se serve?  Como ele continuava com o copo erguido e o mesmo sorriso de contentamento nos lbios, ela resolveu perguntar.  H algum motivo para comemoraes?
	Assim espero!
Parece achar que num estalar de dedos sua vontade ser feita. E ainda passa por cima de todo mundo, sem levar em considerao as emoes, sejam elas quais forem.
	Ora, eu no sabia que havia despertado emoes!  Nathan ironizou.  Cheguei a pensar que o que aconteceu em Raqat foi de comum acordo. Mais tarde, voc me deu razes para pensar o contrrio. Que fui apenas um substituto.
	No!  Gergia negou, com veemncia, lembrando-se de sua entrega plena quando faziam amor.  Nunca, jamais! Voc... no pode acreditar no que acabou de dizer.
	Ento... e aquela conversa no aeroporto?
	Foi em defesa prpria, claro!  Ela deu vazo  raiva que a dominava havia muito tempo.  Sua mulher apareceu de repente no apartamento, questionando nosso relacionamento. O que mais eu podia fazer para salvar meu orgulho? Se me desesperasse no aeroporto, o mundo inteiro ficaria sabendo como fui tola acreditando naquele teatro ridculo no deserto... Oh, casamento...  Gergia parou de falar, com um n na garganta e os olhos rasos d'gua.
	No foi encenao, Gergia. Eu lhe disse na ocasio que havia um motivo para casarmos depressa.
	Ah, voc ia explicar, pretendia explicar, mas, na ver dade, nunca deu nenhuma explicao.
	A permisso para voc permanecer mais tempo em Raqat era o motivo, querida. Os rabes so rigorosos com visitantes que ultrapassam o perodo da visita. Conversei com Freddy a respeito, e ele sugeriu que nos casssemos. Foi romntico, concorda? Eu sabia perfeitamente bem que voc iria querer regularizar a situao quando voltssemos  Inglaterra. Alis, eram meus planos...
	Primeiro de tudo, no quero que me chame de querida e, segundo, esqueceu-se de uma parte importante e prejudicial de seus planos...
Ela o desafiou com o olhar, acreditando que Nat no fosse ter coragem de enfrent-la. Porm, ele o sustentou com tranquilidade, antes de responder:
	Se voc se refere a Marylou, no esqueci. E impossvel esquec-la, infelizmente.
	Voc...
	Nao diga mais nada, Gergia.  Ele lhe segurou a mo sobre a mesa, tentando acalm-la.  Deixe-me, antes, contar-lhe a histria de Marylou.
	De sua esposa, voc quer dizer  ela falou, com rispidez.  No vamos omitir o relacionamento que existe entre vocs dois.
	Marylou nunca foi minha mulher de verdade.
Preocupada em conter as lgrimas, Gergia, em princpio, no entendeu o que ele dissera.
	O qu?
	Doze anos atrs, de fato, casei-me com Marylou. Mas apenas no papel...
	Ah, sim!  ela se indignou. Ser que ele tinha ideia do nvel em que a colocava, dando aquela explicao?  E Philippa? De onde ela surgiu? Por acaso nasceu de um repolho?
	No, claro. Para simplificar o assunto, meu parentesco com Philippa  de tio. E talvez nem isso.
Num gesto abrupto, Gergia puxou a mo que ele alisava com carinho. Precisava raciocinar, e aquele contato sempre a deixava em desvantagem.
Enfrentando os olhos cinzentos que a fitavam com candura, tentava compreender a afirmao que ele acabara de fazer. Seria mentira ou fingimento? De todo o corao, desejava acreditar, mas, diante de tanta falsidade e m-f, s tinha motivos para a desconfiana. E no queria sofrer mais do que j sofrera.
	Por qu?  Gergia perguntou de repente.  Por que devo acreditar em voc agora?
Aquela pergunta o pegara desprevenido. Antes que ele pudesse se controlar, ela vira um trao de angstia no olhar de Nathan.
	Porque  a pura verdade  ele sussurrou.  No posso pensar numa razo melhor. No a censuro por duvidar de mim. A culpa foi toda minha por no ter lhe contado no incio de nosso relacionamento. Esperei muito pelo momento certo e, ao mesmo tempo, queria protel-lo indefinidamente. Primeiro, porque jamais admiti a mim mesmo que era um homem casado e depois... Bem, no queria estragar algo to especial como nosso relacionamento. Talvez, no fundo, eu no quisesse que nada o enfraquecesse.
	Voc disse sobrinha?! Ento Philippa  sua sobrinha?
	Lembra-se de que lhe contei que tinha um irmo mais novo, que morreu num acidente de esqui, no Colorado? Bem, logo em seguida, Marylou, sua namorada, apareceu em casa dizendo que esperava um filho de Phil e que tinham inteno de casarem-se. Minha me, ainda traumatizada, cismou que o filho seria a reencarnao de Phil e que a criana deveria ter o sobrenome da famlia para preencher o espao deixado pelo pai. Pode parecer chantagem ou loucura, mas o nico
desejo de minha me era que eu me casasse com Marylou para a linhagem no ser quebrada. Relutante, lgico, concordei, e nos casamos numa cerimnia de cinco minutos no cartrio. Pouco tempo depois, porm, percebi que havia cometido um erro imperdovel e assim que pude me divorciei, em Nebraska. Em seguida, apaguei totalmente da cabea o assunto.
	E Philippa?     
	Calma. Quando nasceu uma menina em vez de um menino, minha me se decepcionou um pouco, e, nesse meio tempo, Marylou j se tornara uma cruz em nossas vidas. Alm disso, no tnhamos certeza de que Philippa fosse uma Trehearn. Achvamos que Marylou inventara a histria para assegurar um bom futuro para a filha e para ela prpria. Bem, isso ela conseguiu. Mas da at afirmar que Philippa sente saudade do ambiente familiar... Nunca fomos uma famlia, Gergia.
	E Philippa no quer, ou melhor, ela no sente saudade mesmo?
	No. Mesmo que sentisse, Marylou jamais saberia. Philippa estuda num internato excelente em Boston. Sei que est feliz l. Essa falta da famlia  inveno de Marylou. Apesar da me, a menina se tornou uma criana equilibrada, educada e simptica.
	E at hoje vocs no tm certeza se ela  ou no filha de seu irmo?
	Infelizmente, no temos como saber. Bem, ela  muito parecida com a me e tambm no existe nenhuma semelhana fsica conosco. s vezes, notamos alguma expresso familiar ou um jeito especial de virar a cabea... Cheguei a sugerir a Marylou que fizssemos testes de DNA, mas ela desconversou.
	Ento, talvez nem a prpria mae tenha...
	Certeza? Isso mesmo.  Ele deu de ombros.  Essa  a histria que eu deveria ter lhe contado no incio, Gergia. Nada empolgante, no ? Porm, nunca irei me perdoar por ter demorado tanto tempo para lhe revelar tudo.
	Oh, Nathan!
Gergia alisou a toalha da mesa, pensativa. Encontrava dificuldade para assimilar toda a trama. No queria confiar em sua euforia instantnea. Havia poucos instantes, estivera deprimida e agora se sentia alegre? No, era tudo muito bom e perfeito para ser verdade. E quanto a sua prpria postura diante dos fatos? Fizera um julgamento apressado e teria sido mais inteligente conferir a verdade.
No entanto, havia um nico pensamento realmente importante: Nathan Trehearn, o homem que amava e que amaria para o resto da vida, no estava e nunca estivera envolvido com Marylou. Philippa no era filha dele e, talvez...
	Sempre pensei que confiasse em mim, Gergia  Nathan falou, interrompendo seus pensamentos.
	Oh...  No havia palavras para exprimir a profundidade de seu arrependimento. Ela prpria no conseguia entender por que dera crdito a Marylou. S havia uma explicao, Marylou agira com muita convico.  Entenda-me, Nat, quando ela entrou no apartamento parecia muito  vontade, como se estivesse em seu prprio lar e...
	Ora, ela entrou l uma nica vez, querida! Melaine, a amiga da famlia, na verdade,  amiga de Marylou e deve ter-lhe contado sobre ns. Inconformada, Marylou quis estragar nosso relacionamento. O que me deixa mais aborrecido  que, se algum viesse fazer intriga a seu respeito, eu iria querer saber sua verso da histria antes de mais nada.
	Oh, Nathan, sinto muito! Faria qualquer coisa para reparar meu erro...
	Hum... Vou arranjar uma boa penitncia para voc. Deixe-me pensar...
Procurando disfarar a expectativa, ela riu. Sentia o corao batendo forte no peito, mas no podia mostrar-se muito ansiosa e entusiasmada. Se ele quisesse lev-la para a cama naquela hora, Gergia nao pensaria duas vezes. Alis, desejava ser coagida, seduzida! Mais do que disposta, estava impaciente.
	Mas vou querer uma resposta para o que tenho em mente  ele disse, srio.  Concorda?
	Sim, amo!
	O que pretende fazer amanh  tarde?
As palavras dele tiveram o efeito de uma ducha de gua fria em Gergia.
	Oh, Nat! Amanh  tarde?! Por que no neste momento?
	Infelizmente, hoje no vai ser possvel.  Ele consultou o relgio.   muito tarde, e, alm disso, s consegui a licena especial para amanh  tarde. Ser uma cerimnia simples, para decepo de muitos e para nossa alegria. Para ns dois, ter apenas um significado: no posso viver sem voc, amor.
	Oh, Nathan!  Os olhos de Gergia encheram-se de lgrimas.
Por que chorava se estava feliz? Lentamente, esticou a mo e roou-a de leve na face dele.
	No podemos viver um sem o outro, querido...
	Gergia! No vamos fazer o que voc est querendo... Prometi a meu futuro sogro contar o desfecho da histria.  Ele riu diante da expresso cmica e espantada dela.  No ficaria nada bem se ele viesse at aqui e encontrasse a filhinha na cama com um homem! Mas voc ainda no respondeu a minha pergunta. Por favor, no faa tanto suspense. Aceita?
	Sim, sim, sim...
Num mpeto de alegria, Gergia se levantou e saiu rodopiando pela sala de braos abertos at ser abraada por Nathan e carem no sof, rindo.
	Eu te amo  ele falou, com seriedade, prendendo-a contra as almofadas.  Mentira. Sou alucinado por voc.  Oh, quando pensei que a havia perdido... Quando a imaginei nos braos de outro homem...
	Ento, talvez possa imaginar como me senti quando soube que era casado com Marylou e que tinha uma filha.
	No entendo... Por que no confiou em mim?
	Pelo resto de nossas vidas, vou lhe dedicar uma f cega... De hoje em diante, voc passa a ser o homem mais confivel da face da Terra!
	No faa promessas que ter dificuldade em cumprir!
	Ao contrrio, ser muito fcil.  Ela o puxou pela nuca at seus lbios ficarem prximos.  Enquanto voc fizer isto... e... isto e...  Enquanto falava, cobria-o de beijos.
	Se continuar fazendo isto...  ele murmurou junto a sua face e depois a beijou  duvido que consigamos descer para falar com seu pai. E, como temos uma cerimnia marcada para amanh  tarde, acho melhor avis-lo hoje.
Gergia no parecia interessada na conversa e continuou a beij-lo.
	E h mais um detalhe, querida  Nat sussurrou, escapando de seus braos.  Prometi a mim mesmo que, se conseguisse reconquist-la, no tomaria nenhuma atitude precipitada. Por mais forte que fosse a tentao! Portanto, at que a aliana esteja no lugar certo, isto , em seu dedo da mo esquerda, no pretendo quebrar minha promessa. No importa quanto me provoque. Ento, por favor... no dificulte as coisas para ns, Gergia.
	Ora...
	Escute, a partir de amanh, os votos de um celibatrio sofredor vo terminar, e voc poder usar de toda a seduo que quiser. Prometo e garanto retribu-la. Agora, vamos descer e falar com seu pai. No quero mais nenhum impedimento.
Antes de sair, ele a beijou com ardor.
	E, mais uma coisa... Eu te amo muito, querida. Hoje, inicia-se uma nova histria de contos de fada com final feliz.

CAPITULO XI

Gergia e Nathan estavam abraados no jar-' dim da vila. Ela se extasiava diante do mar que se estendia a perder de vista.
O sol se punha. A esfera incandescente desaparecia na linha do horizonte, lanando raios avermelhados sobre a superfcie serena de guas de um azul intenso.
Gergia suspirou, encostando a cabea no ombro de Nathan.
	Oh, Nat! Ainda no me convenci de onde estou.
Ele beijou seus cabelos com carinho.
	Pobrezinha... Deve ter sido um choque acordar sem saber onde estava, no? Pensou que acordaria em Raqat?
	Bem, como eu no fazia ideia de que sua famlia possua esta propriedade no Caribe, realmente fiquei um tanto perdida.
	Desapontou-se?
Gergia se virou para ele, exibindo um sorriso maroto.
	De jeito algum. Na verdade, tambm no ficaria desapontada se fssemos passar a lua-de-mel na Sibria...
Eles riram e beijaram-se.
	Oh, Nathan, at agora no me conformo de ter chegado nesse paraso dormindo feito uma pedra.
Apesar da ansiedade, da impacincia e da pressa em realizar a cerimnia de casamento, o cansao acabara estragando a noite de lua-de-mel.
Era desconcertante imaginar que fora carregada como um saco de batatas do banco do carro para a ilha. Gergia lembrava-se apenas de ter agradecido a uma moa simptica que a despira das roupas de viagem, ajudando-a a vestir a camisola. Depois disso, cara num sono profundo, s acordando na manh seguinte e, felizmente, com boa disposio e recuperada do cansao provocado pela correria dos ltimos dias.
	Para ser sincero, fiquei preocupado em princpio, pensei que no tivesse se sentindo bem. Contudo, logo percebi que se tratava apenas de um esgotamento. Devo lhe confessar que eu tambm precisava descansar.
	Ah! Nem bem se casou e j perdeu o interesse por sua mulher?
	No se preocupe, j me recuperei.  Um barulho de pratos e talheres chamou a ateno de ambos.  Parece que o jantar est pronto. Est com fome, Gergia?
	Faminta.
	Para variar?
O jantar foi servido num terrao espaoso, voltado para o mar. O barulho das ondas quebrando parecia uma msica suave.
Primeiro, Gergia e Nathan tomaram uma sopa levemente apimentada, depois comeram lagosta grelhada e, de sobremesa, uma salada de frutas deliciosa, como ela jamais havia experimentado igual.
	Hum... Est tudo divino!  ela exclamou, erguendo a taa de champanhe.  A ns! A nossa vida! Ao mar, ao cu!
	A nossa felicidade!  Sorrindo, Nathan imitou o gesto dela, percebendo que Gergia j estava ligeiramente excitada pelo lcool.  Eu ainda no lhe falei de uma outra experincia traumatizante que nos espera quando chegarmos aos Estados Unidos, falei?
	Srio?
	Sim. Vai ser apresentada a meus pais.
	E chama isso de experincia traumatizante?! Pois eu esperava que eles fossem...
	Simpticos?  Nathan a interrompeu.  Sim, eles o so, e no se preocupe porque vo ador-la tanto ou mais do que eu. Minha me, em particular, ficou encantada com nosso casamento. Ela sempre teve medo de que eu acabasse solteiro pelo resto da vida, devido  confuso com Marylou. Enganou-se. Mal sabia que eu esperava por sua chegada em Raqat, Gergia! Voc a livrou de um peso enorme. Ento, do que tem medo?
	Na verdade, no  bem o encontro com meus pais que ser traumatizante, mas... prepare-se. Minha me, desde j, comeou organizar uma festa de casamento para ns. Com muita pompa e muitos convidados. Mame no se conforma de no termos tido uma festa em Londres, pode entend-la?
    Sim.
	E no se importa?
	Hoje, no me importo com nada, querido.
	Bem, tenho uma outra surpresa para voc. Convidei seus pais e sua irm para a festa.
	Nathan! E maravilhoso!
	Eles prometeram ir.
	E como pode dizer que uma notcia dessas vai ser traumatizante?
	Ora, tive medo de que voc pudesse no gostar de tantas solenidades. Primeiro, casou-se no deserto. Depois, em Londres. E agora uma festa nos Estados Unidos!
	Pois sinto muito desapont-lo porque estou preparada para enfrentar qualquer situao a seu lado.
	Otimo! Tambm penso o mesmo.  Ele sorriu, inclinando-se sobre a mesa para tomar sua mo e tocou distraidamente na aliana de casamento.  Esta aliana parece to s em seu dedo, querida.
	Talvez, porm estou muito feliz por v-la a. A todo momento, olho para ela.
	Se  assim, ento no precisa de mais uma jia para admirar.
Gergia sorriu com malcia, percebendo as segundas intenes dele.
	Eu no disse isso, Nathan Trehearn!
	Que alvio! Pois tenho um presente para voc.
De olhos bem abertos, ela esperou, inquieta, que ele abrisse uma caixinha de veludo.
	Oh, que anel lindo, Nat!
	Fico contente por voc ter gostado.  Nat o tirou da caixa e colocou-o no dedo dela.  Na loja, fiquei indeciso quanto ao que lhe agradaria mais. Talvez preferisse safiras ou simplesmente diamantes. Mas, quando vi esta pedra da cor de seus olhos, no pude resistir.
Gergia ergueu a mao e admirou o anel por alguns instantes. Depois, balanou a cabea num gesto de aprovao e beijou Nathan com entusiasmo.
	Obrigada, meu amor. Entretanto, como j lhe disse uma vez, voc me mima em excesso.
	Minha inteno sempre foi essa.
Encantada, Gergia movimentava a mo, hipnotizada pelo reflexo da luz na esmeralda lapidada e nos diamantes minsculos a seu redor.
	Quando encontrou tempo para comprar o anel, Nathan?
	Bem... ele hesitou.
	Em Londres? Ora, pensei que estivesse ocupadssimo para perder tempo visitando joalherias!
	No foi em Londres, querida.
	No?! Onde, ento?
	No Cairo. O anel j estava em meu bolso naquele dia fatdico, amor.
	Oh, Nat! Agora me deixou com remorso... Sinto muito...
	Shh...  Ele colocou um dedo sobre seus lbios, impedindo-a de continuar se desculpando.  Basta de desculpas, querida. O que aconteceu foi sofrido para ambos. Mas apenas durante aquele perodo. Talvez tenha at servido para nos unir ainda mais. Veja, neste exato momento, no me arrependo de nada.
	E verdade  ela concordou.  Se os acontecimentos tivessem sido diferentes, poderamos no estar aqui agora. E no posso imaginar lugar mais lindo do que este onde eu gostaria de estar.
	Tem certeza?
	Sim.
	A propsito, sabia que teremos de voltar a Raqat para passar um ou dois meses? Ainda preciso determinar alguns detalhes do projeto do sheik, no mar Vermelho. E, depois, terei de ajudar meu pai nos negcios.
	Acha que vai sentir falta da universidade? Ou da liberdade de escolher entre participar ou no de projetos ambientais do tipo do de Raqat?
Com voc a meu lado, no sinto falta de nada.  Ele acariciou a mo de Gergia.  At hoje, tive sorte em poder fazer as coisas de que gostava. Lucrei com as experincias adquiridas, principalmente com as das ltimas semanas. Elas me ensinaram que o sentimento mais importante da vida  o amor. E, falando nisto...
Nathan a ajudou a se levantar e, abraados, percorreram a casa silenciosa em direo ao quarto envidraado com vista para o mar.
	Eu j lhe disse que estava linda quando chegou  igreja com seu pai?  Nathan sussurrou de encontro a seu rosto.
	Sim, mas... no me importo de ouvir de novo e... de novo.
	Adorei a simplicidade de seu vestido.
	 verdade, ele era simples. Voc nem me deu tempo para eu caprichar!  Ela fingiu indignao.  Conhece alguma outra mulher que tenha se preparado para um casamento em menos de doze horas?
	E adorei ver seus cabelos presos num coque, enfeitados com botes de rosa, irias...
	 porque tenho uma irm que sabe lidar com improvisos.
	Como eu ia dizendo, prefiro seus cabelos ao natural. Lisos como a seda e perfumados como as flores do campo.
 Ora, pensei que gostasse mais de tranas...
	Ah, sim, tambm!  Ele riu.  Vou lhe mostrar minhas preferncias devagar. Infelizmente, no fica bem se eu a deixar envergonhada numa noite to especial... No h pressa, concorda?
	Nathan!
De repente, Gergia sentiu-se inibida, e ele, percebendo isso, quis provoc-la ainda mais.
	Este seu vestido...  Ele passou as mos pela roupa, com sensualidade.  Por que o escolheu? Existe algum motivo especial?
Antes de responder, ela ficou na ponta dos ps e tocou-lhe os lbios, enquanto sentia as mos macias alisando seus ombros.
	Vou ter de lembr-lo? Pensei que soubesse por que o escolhi.
	No, querida. E me lembro perfeitamente de cada de talhe daquela noite.
	Eu tambm  ela sussurrou.  Que outro motivo eu teria para traz-lo para a lua-de-mel, seno que voc se lembrasse...
	Como se algum dia eu pudesse esquecer! Recordo-me como se fosse hoje... Voc entrou na cozinha, usando esse vestido vaporoso, desenhado para enlouquecer os homens. E se ofereceu para me ajudar a preparar a comida, lembra-se?
	J lhe disse, Nathan.  Ela sorriu com doura.  Lembro-me de cada palavra e de cada gesto seu.
	Eu j a desejava naquela poca...  A voz de Nathan tremeu ligeiramente.  Tanto, querida!
	E eu confiava em voc! Podia jurar que estava total mente a salvo a seu lado.
	Mas, at aquele momento, eu ainda acreditava em meu autocontrole.
	Acho que eu nunca deveria ter abandonado a segurana do apartamento de Pete Taylor.
	Se voc tivesse usado esse vestido na casa de Pete, com certeza, eu teria sido obrigado a ir at l para salv-la.
Ento, incapaz de se conter por mais tempo, Nathan comeou a abrir o zper do vestido de Gergia bem devagar...

FIM

